Quatro anos depois de uma das separações mais polémicas da história recente do Manchester United, Erik ten Hag decidiu contar a sua versão dos acontecimentos. Numa entrevista ao The Athletic, o antigo treinador dos red devils fez revelações duríssimas sobre Cristiano Ronaldo, acusando o internacional português de falta de preparação física, de não cumprir determinadas exigências nos treinos e de influenciar negativamente os companheiros. As declarações surgem numa altura em que Ronaldo também enfrenta uma nova polémica relacionada com a Seleção Nacional.
A relação entre Cristiano Ronaldo e Erik ten Hag terminou da pior maneira em novembro de 2022, quando o avançado português abandonou o Manchester United depois de uma entrevista explosiva a Piers Morgan.
Na altura, Ronaldo acusou o treinador neerlandês de lhe faltar ao respeito, deixando claro que a relação entre ambos estava completamente deteriorada.
Agora, quatro anos depois, Ten Hag apresenta uma versão muito diferente da história.
Em declarações ao The Athletic, numa entrevista realizada em Enschede, onde atualmente desempenha funções como diretor técnico do FC Twente, o antigo treinador do Manchester United explicou por que razão considera que Cristiano Ronaldo não correspondeu às expectativas.
E as acusações vão muito além das divergências táticas ou dos problemas de relacionamento que marcaram a passagem dos dois por Old Trafford.
“Cristiano Ronaldo desiludiu a equipa e desiludiu-me a mim”
Erik ten Hag começou por rejeitar a ideia de que nunca pretendeu contar com Cristiano Ronaldo quando chegou ao Manchester United, no verão de 2022.
Segundo o treinador neerlandês, o internacional português fazia parte dos planos iniciais da equipa técnica.
Ten Hag revelou mesmo que viajou até Portugal para conversar pessoalmente com Ronaldo antes de assumir funções em Old Trafford.
“Ele desiludiu a equipa e desiludiu-me a mim, porque nós planeámos com ele. Voei até Portugal para falar com ele sobre o que pretendia antes de chegar ao United.”
O treinador reconheceu a dimensão histórica do futebolista português, mas insistiu que o estatuto individual não poderia sobrepor-se às necessidades coletivas.
“Obviamente, é um dos melhores da história do futebol. Respeitava-o muito. Mas, naquela altura, como treinador, tive de tomar uma decisão racional.”
Para Ten Hag, o problema não estava na qualidade técnica de Cristiano Ronaldo, mas naquilo que considerava ser a incapacidade do avançado para responder às exigências físicas e coletivas da equipa.
Ten Hag acusa Ronaldo de abandonar treinos e não cumprir exercícios
Uma das revelações mais polémicas da entrevista está relacionada com o comportamento de Cristiano Ronaldo durante as sessões de treino.
Segundo Erik ten Hag, o avançado português não completava determinados exercícios e, em algumas ocasiões, desistia das sessões antes do previsto.
O treinador também afirmou que Ronaldo não atingia os níveis de intensidade física que eram exigidos aos restantes jogadores.
Um dos episódios recordados aconteceu em agosto de 2022, depois da pesada derrota do Manchester United frente ao Brentford, por 4-0, na Premier League.
Na sequência dessa goleada, Ten Hag impôs ao plantel um exercício físico adicional, que ficou conhecido como uma corrida de castigo.
Segundo a versão agora apresentada pelo treinador, Cristiano Ronaldo completou apenas duas das três voltas previstas.
O episódio é apresentado por Ten Hag como um exemplo das dificuldades que enfrentou para implementar os padrões de exigência física pretendidos.
Importa sublinhar que estas são alegações do antigo treinador, apresentadas na entrevista ao The Athletic, e não uma versão confirmada pelo próprio Ronaldo.
“Não corria nem com bola nem sem bola”
As críticas de Erik ten Hag tornam-se ainda mais contundentes quando o treinador aborda a capacidade de Cristiano Ronaldo para responder às exigências do seu modelo de jogo.
O neerlandês afirma que confrontou diretamente o internacional português com aquilo que considerava ser uma preparação física insuficiente.
“Confrontei-o com isto. Muitas vezes lhe disse: ‘Ronnie, toda a gente quer trabalhar para ti, para te pôr na posição certa, mas se não conseguires chegar à área, não consegues marcar’. Ele não era capaz de o fazer.”
Ten Hag rejeita também a ideia de que pretendia obrigar Ronaldo a realizar um trabalho defensivo incompatível com a sua idade ou características.
Segundo o antigo treinador do Manchester United, a questão era mais básica: o português não apresentava, na sua opinião, os índices físicos necessários.
“É errado dizerem que eu esperava que ele pressionasse e que ficasse exausto. Ele simplesmente não conseguia. Não corria nem com bola nem sem bola. E a razão é que não se preparava.”
A acusação é particularmente dura por colocar em causa precisamente uma das características mais associadas à carreira de Cristiano Ronaldo: a disciplina e a dedicação à preparação física.
Durante décadas, o internacional português construiu uma reputação de profissional extremamente exigente consigo próprio, destacando frequentemente a importância do treino, da alimentação e da recuperação física.
Ten Hag apresenta agora uma avaliação muito diferente relativamente ao período em que ambos trabalharam juntos.
“O grande jogador também tem de trabalhar para a equipa”
Ao longo da entrevista, Erik ten Hag insistiu na ideia de que nenhuma equipa pode funcionar quando o estatuto individual de um jogador se sobrepõe às responsabilidades coletivas.
O treinador neerlandês reconhece que os grandes futebolistas exigem uma gestão específica, mas considera que essa adaptação deve funcionar nos dois sentidos.
“Todas as grandes equipas têm de abraçar o grande jogador, mas o grande jogador tem de trabalhar para a equipa.”
Esta frase resume a principal crítica de Ten Hag ao comportamento de Cristiano Ronaldo no Manchester United.
Na perspetiva do treinador, o clube estava disponível para adaptar determinados aspetos do seu jogo às características do português, mas Ronaldo também precisava de corresponder às exigências da equipa.
Foi precisamente essa falta de reciprocidade que, segundo Ten Hag, acabou por tornar a relação insustentável.
A acusação mais grave: Ronaldo dizia aos colegas para pouparem as pernas nos treinos
Se as críticas à condição física já são contundentes, as declarações sobre a influência de Cristiano Ronaldo no balneário poderão ser ainda mais polémicas.
Erik ten Hag afirma que o internacional português aconselhava outros jogadores a reduzir a intensidade durante os treinos.
“Ele dizia aos jogadores: ‘Poupem as pernas no treino’.”
O antigo treinador reconhece que a gestão do esforço físico pode ser necessária em determinadas fases da temporada, mas considera que isso só faz sentido quando os futebolistas já apresentam uma condição física adequada.
“Percebo isso quando se está em plena forma. Há sessões em que se pode poupar as pernas. Mas primeiro tens de treinar para chegar aos níveis de forma certos.”
Ten Hag sugere, assim, que a atitude de Ronaldo poderia ter contribuído para enfraquecer os padrões de exigência que pretendia implementar no Manchester United.
O treinador alargou depois as críticas ao comportamento de outros elementos do plantel.
“Os jogadores têm uma grande responsabilidade. Para alguns, o futebol não é a maior prioridade. E o United, para alguns, não era a maior prioridade.”
Embora não identifique todos os jogadores a quem se refere nesta passagem, as palavras deixam transparecer a insatisfação de Ten Hag com a mentalidade de parte do grupo que encontrou em Old Trafford.
Ten Hag aponta o dedo à “ligação Madrid”: Ronaldo, Casemiro e Varane
As críticas do treinador neerlandês não ficaram limitadas a Cristiano Ronaldo.
Ten Hag também abordou aquilo que descreveu como a “ligação Madrid”, formada por três antigos jogadores do Real Madrid que se reencontraram no Manchester United.
Em causa estavam:
- Cristiano Ronaldo, antigo avançado do Real Madrid;
- Casemiro, médio brasileiro contratado ao clube espanhol;
- Raphaël Varane, defesa-central francês que também representou os merengues.
Os três tinham conquistado, em conjunto, 14 Ligas dos Campeões pelo Real Madrid, contando os títulos individuais de cada um.
Apesar da experiência e do currículo impressionante, Ten Hag considera que a influência destes jogadores nem sempre foi positiva para o processo de transformação do Manchester United.
“Acho que foi isso que a ligação Madrid trouxe: jogadores poderosos que querem decidir. Na minha opinião, não servia a fase em que o United estava.”
O neerlandês explicou que existia uma diferença entre o futebol pretendido pela estrutura do clube e aquilo que, na sua perspetiva, alguns jogadores preferiam.
“A direção queria futebol atacante e dinâmico e estes jogadores queriam jogar o que lhes convinha.”
Ten Hag considera que o peso e a influência de jogadores habituados a conquistar títulos no Real Madrid acabaram por dificultar a implementação do projeto desportivo que pretendia desenvolver em Manchester.
Trata-se, contudo, da interpretação do treinador sobre aquele período, não tendo sido apresentada na entrevista uma resposta dos três futebolistas a estas acusações.
A entrevista explosiva a Piers Morgan que precipitou a saída de Ronaldo
O conflito entre Cristiano Ronaldo e Erik ten Hag tornou-se público em novembro de 2022.
Numa entrevista concedida a Piers Morgan, o internacional português criticou duramente o Manchester United e a forma como estava a ser tratado pelo treinador.
Ronaldo afirmou que não respeitava Ten Hag porque, na sua opinião, o neerlandês também não demonstrava respeito por ele.
A entrevista provocou uma enorme polémica em Inglaterra e tornou praticamente impossível a continuidade do avançado em Old Trafford.
Pouco depois, o Manchester United anunciou a saída de Cristiano Ronaldo por mútuo acordo.
O português terminava assim a sua segunda passagem pelo clube inglês, que tinha começado em agosto de 2021, quando regressou proveniente da Juventus.
Na altura, Ronaldo apresentou o conflito como uma questão de respeito e relacionamento pessoal. Quatro anos depois, Ten Hag insiste que o verdadeiro problema estava na preparação, no trabalho e na atitude do jogador.
As acusações surgem depois de nova polémica com Jorge Jesus
As declarações de Erik ten Hag surgem num momento particularmente delicado para Cristiano Ronaldo.
Há menos de três semanas, o internacional português esteve envolvido numa polémica com Jorge Jesus, atual selecionador nacional.
O capitão da Seleção Nacional abandonou o estágio depois de um desentendimento relacionado com a sua utilização e com compromissos que, segundo o próprio, não terão sido cumpridos pelo treinador.
O episódio acabou por originar um processo disciplinar na Federação Portuguesa de Futebol.
Ronaldo foi castigado com 30 dias de suspensão, com efeitos retroativos a 30 de setembro, e uma multa de 255 euros.
A suspensão aplica-se à atividade na Seleção Nacional, não impedindo o jogador de continuar a representar o Al Nassr.
O caso ganhou ainda maior dimensão depois de se conhecer a posição apresentada pelo jogador durante o processo disciplinar.
Num comunicado público, Cristiano Ronaldo tinha afirmado que não pretendia beneficiar de circunstâncias atenuantes e que o estatuto de capitão deveria até constituir uma agravante.
Contudo, na defesa apresentada no processo, foram invocadas quatro circunstâncias atenuantes.
Esta contradição provocou críticas e acrescentou uma nova dimensão à polémica.
Manchester United e Seleção Nacional: dois conflitos com treinadores diferentes
A proximidade temporal entre a entrevista de Ten Hag e os acontecimentos recentes na Seleção Nacional torna inevitável a comparação entre os dois episódios.
Em Manchester, Cristiano Ronaldo entrou em conflito com Erik ten Hag, acabando por abandonar o clube depois de uma entrevista pública extremamente crítica.
Na Seleção Nacional, o avançado voltou a envolver-se numa situação de tensão com um treinador, desta vez Jorge Jesus, que culminou na saída antecipada do estágio e num castigo disciplinar.
São situações diferentes, com contextos e circunstâncias próprias, mas ambas ficaram marcadas por divergências entre Ronaldo e a autoridade técnica responsável pela equipa.
As declarações de Ten Hag acrescentam agora novos elementos à discussão sobre a passagem do português pelo Manchester United.
O neerlandês não se limita a falar de incompatibilidades táticas ou de problemas de relacionamento.
Acusa diretamente Ronaldo de falta de preparação, de não cumprir determinados exercícios e de transmitir aos companheiros mensagens que considerava contrárias à cultura de trabalho que pretendia implementar.
Estas acusações são especialmente relevantes por partirem de alguém que trabalhou diretamente com o jogador.
Ao mesmo tempo, importa reconhecer que a entrevista apresenta a versão de Ten Hag e que Cristiano Ronaldo ainda não respondeu publicamente às novas declarações.
Cristiano Ronaldo não respondeu às acusações
Segundo o The Athletic, os representantes de Cristiano Ronaldo foram contactados para comentar as declarações do antigo treinador do Manchester United.
No entanto, não foi recebida qualquer resposta até ao momento da publicação da entrevista.
Assim, as acusações de Erik ten Hag permanecem sem contraditório público por parte do internacional português nesta nova fase da polémica.
O silêncio não permite concluir que Ronaldo concorde com a versão apresentada pelo treinador.
Mas também não diminui a gravidade das acusações feitas por Ten Hag, que decidiu expor publicamente pormenores até agora desconhecidos da relação entre ambos.
Quatro anos depois, Ten Hag deixa uma mensagem difícil de ignorar
A entrevista ao The Athletic reabre uma das maiores polémicas da carreira de Cristiano Ronaldo.
Durante anos, a saída do português do Manchester United foi discutida sobretudo em torno da relação pessoal com Erik ten Hag, da falta de minutos e da forma como o treinador geriu um dos maiores nomes da história do futebol.
Agora, o neerlandês procura mudar o centro da discussão.
Na sua versão, Ronaldo não foi afastado simplesmente por ser uma estrela difícil de gerir ou por não se enquadrar no sistema tático.
Foi afastado porque, segundo Ten Hag, não apresentava os níveis de preparação exigidos e não correspondia às responsabilidades coletivas que o treinador considerava fundamentais.
A acusação torna-se particularmente contundente quando é colocada ao lado da reputação de profissionalismo e dedicação física que Cristiano Ronaldo construiu ao longo de mais de duas décadas.
É precisamente essa contradição entre a imagem pública do jogador e o retrato apresentado pelo antigo treinador que promete alimentar a discussão.
Quatro anos depois, Erik ten Hag parece determinado a deixar claro que, para ele, o problema nunca foi simplesmente uma questão de respeito.
Foi, acima de tudo, uma questão de trabalho, preparação e compromisso com a equipa.


