A saída explosiva de Cristiano Ronaldo do estágio da Seleção Nacional pode não significar o fim da sua história com Portugal. Depois de dias marcados por polémica, silêncio e uma rutura que parecia impossível de reparar, a Federação Portuguesa de Futebol estará já a trabalhar numa tentativa de aproximação. O objetivo passa por reunir as partes na próxima semana e evitar que mais de duas décadas de Cristiano com a camisola das Quinas terminem desta forma.
Quando Cristiano Ronaldo deixou a concentração portuguesa em Copenhaga e prometeu contar “a verdade” aos portugueses, tudo apontava para uma rutura de consequências imprevisíveis.
Agora surge uma importante reviravolta.
Segundo as informações avançadas pela imprensa espanhola, a Federação Portuguesa de Futebol não quer aceitar que a extraordinária carreira internacional de Cristiano termine no meio de uma guerra com Jorge Jesus.
E já estará a preparar uma tentativa de reconciliação.
FPF quer juntar as partes e encontrar uma saída
A intenção da estrutura federativa passa por promover, já na próxima semana e com o acordo de Cristiano Ronaldo, uma aproximação entre todas as partes envolvidas no conflito.
Jorge Jesus deverá fazer parte desse processo.
O objetivo será perceber se ainda existe espaço para reconstruir a relação e criar condições para que Cristiano possa voltar à Seleção Nacional.
Dentro da Federação existirá a convicção de que, independentemente daquilo que aconteceu nos últimos dias, a história de Ronaldo com Portugal não deveria terminar de forma tão abrupta.
Estamos, afinal, a falar de um jogador que representa a Seleção principal desde 2003 e que se transformou numa das maiores figuras da história do futebol português.
Para a FPF, um eventual adeus deverá acontecer com respeito e dignidade e não como consequência de uma polémica entre capitão e selecionador.
O objetivo é impedir que esta seja a última imagem de Ronaldo na Seleção
A preocupação não estará apenas relacionada com a resolução do conflito interno.
Existe também uma dimensão histórica.
Cristiano Ronaldo é uma das figuras mais importantes de sempre da Seleção Nacional e o organismo federativo não pretende que a sua ligação às Quinas fique marcada, no último capítulo, por uma saída do estágio na véspera de um encontro oficial.
Daí a vontade de baixar a temperatura e procurar uma solução que permita, pelo menos, restabelecer uma relação cordial entre Ronaldo, Jorge Jesus e a Federação.
A grande incógnita é saber se essa aproximação poderá resultar num verdadeiro regresso do capitão à Seleção.
Isso dependerá, naturalmente, da disponibilidade de todas as partes.
A mensagem de Ronaldo deixou uma porta aberta?
Apesar da enorme tensão criada pela sua saída, há um pormenor no comunicado de Cristiano Ronaldo que poderá assumir agora uma importância ainda maior.
O avançado não anunciou oficialmente a retirada da Seleção.
Ronaldo confirmou que decidiu abandonar o estágio, prometeu explicar posteriormente as razões dessa decisão, mas terminou a mensagem desejando sucesso a Portugal e aos companheiros.
“A seu tempo, direi a verdade a todos os Portugueses sobre as razões que motivaram a minha saída da equipa nacional, à qual sempre me dediquei. Agora é tempo de desejar boa sorte a Portugal e a todos os meus companheiros de equipa, sem exceção”, escreveu.
Não houve, portanto, uma frase definitiva anunciando o fim da carreira internacional.
E poderá ser precisamente nessa margem que a Federação pretende trabalhar.
FPF começou por proteger a equipa
Logo após a saída de Ronaldo, a primeira reação oficial da Federação foi bastante prudente.
Em vez de alimentar a polémica ou responder às palavras do capitão, o organismo colocou toda a atenção nos compromissos desportivos da Seleção.
“Toda a delegação mantém o foco absoluto nos próximos compromissos da Seleção Nacional e na concretização dos objetivos definidos”, referiu a Federação.
A prioridade imediata era impedir que a crise contaminasse o grupo de trabalho.
Portugal tinha jogos para disputar e Jorge Jesus precisava de manter os restantes jogadores concentrados no futebol.
Mas, ultrapassada essa fase mais urgente, a estratégia parece agora entrar num segundo momento: tentar resolver o problema.
A ordem dentro da Seleção parece ser clara: ninguém fala de Ronaldo
Outro sinal da forma cautelosa como a Federação está a gerir o caso surgiu depois da vitória de Portugal frente à Dinamarca.
Os jogadores foram questionados repetidamente sobre Cristiano Ronaldo, mas praticamente ninguém quis entrar no assunto.
Renato Veiga acabou mesmo por revelar que tinha recebido indicações para não falar.
“Sou muito próximo do Cris, ele sabe que tenho muito carinho por ele, mas disseram-me que não posso falar sobre isso”, explicou o defesa.
A frase tornou evidente a política de comunicação adotada dentro da comitiva portuguesa.
Neste momento, quanto menos declarações públicas existirem sobre a polémica, menor será a possibilidade de surgir uma nova frase capaz de aumentar ainda mais a tensão.
A Federação parece preferir que qualquer tentativa de reconciliação aconteça longe dos microfones.
Jorge Jesus continua no centro de toda a questão
Uma eventual paz entre Cristiano Ronaldo e a Federação dificilmente poderá ser alcançada sem resolver primeiro a relação entre o jogador e Jorge Jesus.
Foi precisamente após a conferência de imprensa do selecionador que Ronaldo anunciou a decisão de abandonar o estágio.
Jesus tinha assumido publicamente uma posição muito firme sobre a autoridade do treinador e sobre a gestão dos minutos do capitão.
“Nunca nenhum jogador vai mudar as minhas ideias. Nem ele nem ninguém no futebol. Nem nenhum presidente. Nunca, zero”, afirmou o selecionador.
Ronaldo deixou pouco depois a concentração e fez questão de referir no comunicado que a decisão surgiu “após a conferência de imprensa do Selecionador Nacional” e depois de uma conversa com Pedro Proença.
A sequência dos acontecimentos tornou inevitável a interpretação de que as declarações de Jesus tiveram um peso importante na decisão.
A versão de uma alegada “traição” agravou ainda mais o caso
Entretanto, surgiram versões segundo as quais Ronaldo se terá sentido particularmente magoado com Jorge Jesus.
Edu Aguirre, jornalista espanhol conhecido pela proximidade ao internacional português, afirmou que Jesus teria reconhecido em privado não ter gerido da melhor forma o episódio em que colocou Ronaldo a aquecer durante largos minutos frente à Noruega sem posteriormente o lançar no encontro.
Segundo Aguirre, o selecionador teria inclusivamente manifestado disponibilidade para abordar publicamente a situação.
O tom adotado posteriormente na conferência de imprensa terá sido interpretado por Ronaldo de uma forma completamente diferente.
Foi então que, segundo a versão apresentada pelo jornalista espanhol, Cristiano se terá sentido “traído”.
Essa versão não foi confirmada oficialmente pelas partes envolvidas, mas ajuda a perceber por que motivo uma reunião presencial poderá ser considerada essencial para ultrapassar o conflito.
Apoio a Ronaldo aparece nas ruas de Lisboa
A dimensão do caso ultrapassou entretanto os limites da própria Seleção.
Cristiano Ronaldo continua a ter uma enorme base de apoio em Portugal e começaram a surgir manifestações públicas de solidariedade para com o jogador.
De acordo com a informação divulgada, apareceram cartazes de apoio ao capitão em diferentes pontos de Lisboa, incluindo numa zona entre o Estádio da Luz e o aeroporto.
Uma das mensagens elogia Ronaldo e critica diretamente Jorge Jesus, afirmando que o selecionador “não esteve à altura”.
É mais um exemplo da divisão criada pelo episódio.
De um lado estão aqueles que defendem que nenhuma figura pode estar acima das decisões do selecionador. Do outro encontram-se os adeptos que consideram que um jogador com a dimensão histórica de Ronaldo deveria ter recebido outro tipo de tratamento.
A reunião da próxima semana pode decidir tudo
É neste ambiente que a Federação pretende tentar aproximar novamente as partes.
O simples facto de estar a ser preparada uma tentativa de reconciliação representa uma mudança importante relativamente ao cenário que se desenhou imediatamente após a saída de Ronaldo.
A porta, aparentemente, ainda não está completamente fechada.
Mas existem questões difíceis por resolver.
Ronaldo terá de aceitar um novo estatuto numa Seleção em que Jorge Jesus já demonstrou estar preparado para o deixar no banco sempre que considerar que essa é a melhor decisão desportiva.
Jesus, por sua vez, terá de perceber se consegue reconstruir uma relação de confiança com um jogador que saiu do estágio depois das suas declarações públicas.
E Pedro Proença terá a difícil missão de proteger simultaneamente a autoridade do selecionador, a estabilidade do balneário e a dignidade de uma das maiores figuras da história da Seleção.
O adeus que parecia consumado pode afinal não acontecer já
Nos últimos dias chegaram a surgir informações apontando para uma decisão irreversível de Cristiano Ronaldo de não voltar a representar Portugal.
A movimentação da Federação introduz agora uma nova variável.
Não significa que Ronaldo vá regressar.
Não significa sequer que as partes consigam ultrapassar aquilo que aconteceu.
Mas significa que a FPF não está preparada para deixar esta história terminar sem uma última tentativa de entendimento.
Depois de mais de duas décadas com a camisola portuguesa, a Federação considera que Cristiano merece um desfecho à altura da sua carreira.
A próxima semana poderá, por isso, ser absolutamente decisiva.
Ou haverá condições para uma paz histórica e para um eventual regresso, ou Portugal poderá finalmente perceber que está realmente perante o fim da era Cristiano Ronaldo.


