Cristiano Ronaldo abandonou a concentração da Seleção Nacional a 24 horas de um jogo oficial, mas, para Pedro Proença, tudo não terá passado de um “mal-entendido”. O presidente da Federação Portuguesa de Futebol desvalorizou publicamente a atitude do capitão e abriu imediatamente a porta ao seu regresso já em novembro. Uma posição que ganha ainda mais força quando se recorda aquilo que aconteceu a Ricardo Carvalho quando tomou uma decisão semelhante: foi suspenso durante um ano.
Pedro Proença pronunciou-se este domingo sobre a crise que abalou a Seleção Nacional nos últimos dias e escolheu uma estratégia clara: baixar a temperatura e proteger Cristiano Ronaldo.
Em declarações à RTP Notícias, o presidente da FPF classificou toda a situação como um simples “mal-entendido” e mostrou-se confiante de que Ronaldo poderá voltar a representar Portugal já na próxima convocatória.
“É um jogador extraordinário que podia ter terminado a sua carreira na seleção nacional após o Mundial, mas não quis pelo amor que tem pela sua seleção. Vamos ter tempo e tranquilidade para nos próximos dias nos sentarmos todos e resolver este mal-entendido.”
As palavras são particularmente relevantes porque chegam depois de uma sequência de acontecimentos que dificilmente pode ser reduzida, sem mais explicações, a um mero equívoco.
Ronaldo abandonou o estágio antes de um jogo oficial
Cristiano Ronaldo não saiu do banco diante da Noruega, apesar de ter estado a aquecer durante uma parte significativa da segunda parte. No final da partida, mostrou-se insatisfeito e seguiu para o balneário.
Nos dias seguintes, falhou os treinos da Seleção e, na quarta-feira, tomou a decisão mais polémica: abandonou por iniciativa própria a concentração portuguesa em Copenhaga, cerca de 24 horas antes do encontro oficial diante da Dinamarca.
O próprio Ronaldo confirmou posteriormente que tinha conversado com Pedro Proença antes de sair e prometeu explicar mais tarde as razões da decisão.
“A seu tempo, direi a verdade a todos os portugueses sobre as razões que motivaram a minha saída da equipa nacional, à qual sempre me dediquei.”
Portugal acabou por entrar em campo sem o capitão e venceu a Dinamarca por 4-2.
Pedro Proença prefere falar no “amor” de Ronaldo pela Seleção
Perante tudo isto, seria legítimo esperar que o presidente da Federação explicasse se a saída de um jogador de uma concentração antes de um compromisso oficial é compatível com as obrigações de um internacional português.
Pedro Proença escolheu outro caminho.
Em vez de condenar publicamente o abandono, destacou o “amor” de Ronaldo pela Seleção, classificou o episódio como um “mal-entendido” e apontou já para uma reconciliação.
Na prática, antes de serem conhecidas publicamente todas as razões que levaram Ronaldo a sair, o presidente da FPF já está a trabalhar para que o capitão regresse.
E é precisamente aqui que surge uma comparação extremamente incómoda para a Federação Portuguesa de Futebol.
O precedente Ricardo Carvalho que deixa a FPF numa posição delicada
Em 2011, Ricardo Carvalho também abandonou uma concentração da Seleção Nacional depois de perceber que não seria titular num encontro de qualificação para o Euro 2012 diante do Chipre.
Na altura, Paulo Bento não procurou esconder a gravidade do sucedido e classificou a atitude como uma “deserção”.
A resposta disciplinar foi pesada. Ricardo Carvalho acabou suspenso durante um ano pela FPF e perdeu ainda prémios relacionados com a qualificação.
A comparação não significa automaticamente que os dois processos sejam juridicamente ou disciplinarmente idênticos. As circunstâncias, os regulamentos aplicáveis e os procedimentos têm de ser analisados individualmente.
Mas politicamente e institucionalmente a pergunta é inevitável.
Se abandonar uma concentração da Seleção por descontentamento com uma decisão do selecionador foi suficientemente grave para justificar um ano de suspensão de Ricardo Carvalho, como pode agora a saída de Cristiano Ronaldo ser apresentada pelo presidente da Federação simplesmente como um “mal-entendido”?
Há jogadores acima das regras?
É esta a questão que Pedro Proença terá de conseguir explicar.
Ninguém pode apagar aquilo que Cristiano Ronaldo fez por Portugal. Os recordes, os golos, o Euro 2016, as Ligas das Nações e mais de duas décadas ao serviço da equipa nacional fazem dele uma figura absolutamente única na história do futebol português.
Mas reconhecer esse estatuto não obriga uma Federação a abdicar do princípio de que todos os jogadores estão sujeitos às regras da Seleção.
Aliás, quanto maior for a importância de um capitão, maior poderá ser considerada a responsabilidade inerente às suas decisões.
É também por isso que as declarações de Pedro Proença são tão polémicas. O presidente da FPF não se limitou a deixar a porta aberta a uma reconciliação. Desvalorizou publicamente o episódio antes sequer de Cristiano Ronaldo cumprir a promessa de explicar aos portugueses aquilo que realmente aconteceu.
FPF quer Ronaldo de volta já em novembro
Pedro Proença deixou ainda perceber que espera resolver rapidamente a situação e recuperar Ronaldo para a Seleção já em novembro.
A reconciliação pode perfeitamente ser o melhor desfecho para todas as partes. Cristiano Ronaldo merece respeito pela extraordinária carreira que construiu e Portugal tem interesse em evitar que uma história com mais de duas décadas termine desta forma.
Mas reconciliação e responsabilização não são conceitos incompatíveis.
A FPF pode procurar a paz entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus e, simultaneamente, esclarecer se houve uma violação das obrigações de um jogador convocado para representar Portugal.
O que será muito mais difícil de explicar aos portugueses é uma Federação que no passado castigou severamente um internacional por abandonar uma concentração e que agora, perante um episódio com evidentes paralelos, prefere falar imediatamente em “amor”, “tranquilidade” e “mal-entendido”.
Ricardo Carvalho não tinha 234 internacionalizações nem 146 golos. Não era o maior símbolo mediático do futebol português. Mas também vestia a camisola de Portugal.
E é precisamente por isso que o caso coloca uma pergunta que Pedro Proença dificilmente conseguirá evitar nos próximos dias: na Seleção Nacional as regras são iguais para todos ou dependem do nome que está escrito nas costas da camisola?


