Cristiano Ronaldo está na pré-convocatória para os jogos de novembro. Se chegar à lista final, Jesus arrisca-se a perder aquilo que um selecionador não pode perder: a autoridade.
Cristiano Ronaldo abandonou o estágio da Seleção na véspera de um jogo, acusou publicamente o selecionador de quebrar acordos, foi castigado pela Federação e, um mês depois, está de volta à lista. Segundo O Jogo, o capitão faz parte da pré-convocatória de Jorge Jesus para os jogos com a Dinamarca, em Braga, e com o País de Gales, em Cardiff. A lista final é conhecida a 6 de novembro.
A pré-lista é extensa e, por si só, não garante nada. Mas o sinal está dado, e é aqui que começa o problema de Jorge Jesus.
O selecionador que foi desautorizado em público
Recorde-se o que aconteceu. Ronaldo ficou no banco os 90 minutos frente à Noruega, soube que também não seria titular contra a Dinamarca e saiu do estágio a 30 de setembro. No comunicado que publicou depois, pediu desculpa aos adeptos e aos colegas, mas acusou Jesus de não cumprir dois acordos: o de lhe dar cerca de 30 minutos frente à Noruega e o de esclarecer a situação na conferência de imprensa.
Ou seja, o jogador desautorizou o treinador em frente ao país inteiro. E a única resposta institucional que se seguiu foi um castigo de 30 dias e 255 euros de multa, que a própria imprensa internacional tratou como uma piada.
O que Jesus disse e o que está a fazer
Jesus garantiu que as escolhas eram suas e que dependiam do jogo. Segundo o jornal saudita Arriyadiyah, que cita uma fonte próxima do treinador, Jesus só aceitaria o regresso do capitão com condições: estar disponível como qualquer outro, seja titular, suplente ou não utilizado. Ronaldo, segundo a mesma fonte, terá recusado essas condições.
Se nada mudou publicamente, e Ronaldo aparecer na lista final, a pergunta é inevitável: quem cedeu? Um selecionador que impõe regras e depois convoca quem as rejeitou passa a mensagem de que as regras não são iguais para todos.
O balneário está a ver
A Seleção não é só Ronaldo. É Bruno Fernandes, Bernardo Silva, Rúben Dias, Vitinha, João Neves, jogadores que estiveram no estágio, ficaram, jogaram e ganharam à Dinamarca por 4-2 sem o capitão.
Que mensagem recebem esses jogadores se quem saiu sem autorização volta como se nada fosse? Na próxima vez que um titular for para o banco, que autoridade terá Jesus para lhe pedir paciência? Um treinador governa um balneário com coerência. Basta uma exceção para deixar de ter autoridade.
Os adeptos escolheram Jesus
O país também já falou. Numa sondagem da Pitagórica para a TVI/CNN Portugal, 84% dos inquiridos querem que Jesus continue como selecionador e, se tivessem de escolher entre os dois, 66% ficariam com Jesus, mesmo que isso significasse o fim da carreira internacional de Ronaldo. Só 19% escolheriam o capitão. 46% consideram que é altura de Ronaldo terminar a carreira na Seleção, contra 41% que querem que continue.
Num estudo da Netsonda para o Observador, 65% discordam da forma como Ronaldo saiu e 41% entendem que não deve continuar a ser capitão, contra apenas 16% que defendem que mantenha a braçadeira. Numa votação entre leitores de A Bola, com mais de 25 mil votos, mais de 70% responderam que o castigo de Ronaldo deve ser não voltar à Seleção.
Os adeptos ficaram do lado de Jesus. Se o selecionador ceder agora, perde também esse apoio.
A decisão que pode definir o resto do seu mandato
Jorge Jesus tem até 6 de novembro para decidir. Se deixar Ronaldo de fora, confirma que as regras se aplicam a todos, incluindo ao maior goleador da história. Se o convocar sem que o capitão tenha aceitado publicamente as suas condições, passa a imagem de que quem manda na Seleção não é o selecionador.
Ronaldo pode até voltar a marcar golos, mas a autoridade de um treinador, quando se perde, não volta. E pode ser isso que está em jogo no dia 6 de novembro: o lugar de Ronaldo na Seleção e também o de Jorge Jesus.


