Há noites que valem por uma temporada inteira. A de terça-feira, em Milão, foi uma dessas. O Benfica entrou no templo rossonero, calou 70 mil adeptos e saiu de San Siro com um 2-0 que é muito mais do que três pontos na Liga Europa: é um aviso à navegação. E o próximo barco a afundar atende pelo nome de FC Porto.
Reparem no contexto, porque é aí que mora a chacota. Marco Silva fez nove alterações ao onze e, ainda assim, a equipa foi quase sempre superior a um Milan orientado por Rúben Amorim. Nove. O Benfica joga com a segunda linha e passeia-se em Itália. Lukebakio, de fora da área, inaugurou o marcador aos 16 minutos; Kaminski, um dos ditos “patinhos feios”, fechou a contagem aos 53. Pelo meio, Sudakov ainda acertou no poste e Trubin negou por duas vezes o golo a Pulisic. Domínio, eficácia e uma baliza a zeros num palco onde as águias nunca antes tinham vencido. À sétima, foi de vez — e foi a rir.
Agora contrastem com o que o FC Porto andou a fazer na Europa. Recebeu o Manchester City no Dragão, na estreia da Champions, e foi varrido: 0-2, dois golos de Haaland, zero de resposta. O Porto de Farioli não rematou à baliza com perigo, não criou, não existiu quando o adversário apertou. Enquanto o Benfica ia a Milão bater o campeão italiano com os suplentes, o Porto ficava em casa a ver o norueguês fazer o que lhe apetecia. É esta a equipa que vos garantem imbatível? A que se encolhe sempre que sobe de patamar?
O argumento portista vai ser o do costume: “mas lideram o campeonato, mas ganharam à Casa Pia por 4-1, mas têm a Supertaça”. Tudo verdade. E tudo irrelevante golear o Arouca e o Ac. Viseu não prepara ninguém para o que aí vem. O Benfica testou-se contra os grandes e passou no exame. O Porto testou-se contra os grandes e levou uma lição. No domingo, no Dragão, não há Alvercas nem Casas Pias para maquilhar o currículo. Há um Benfica lançado, com fome e com uma profundidade de plantel que o Porto simplesmente não tem.
E é nesse ponto — a profundidade — que este clássico já está decidido antes de rolar a bola. O Benfica pode mudar meia equipa e continuar a ganhar em San Siro. O Porto, quando lhe tiram três ou quatro titulares, fica pela metade. Marco Silva ganhou pela primeira vez um duelo de 90 minutos a Amorim; imaginem o que fará contra um treinador que ainda anda à procura da própria identidade no banco portista. A moral está toda de um lado. A confiança está toda de um lado. O momentum está todo de um lado.
Por isso não venham falar de equilíbrio. Este clássico tem um favorito claríssimo, e não é a equipa da casa. O Benfica chega ao Dragão a voar, com a Europa aos pés e a certeza de que, se bate o Milan com os suplentes, bate este Porto com os titulares. Preparem-se, adeptos encarnados: domingo não vai ser um jogo, vai ser uma exibição. E quando o apito final soar, o marcador vai contar a história que já toda a gente pressente — o Benfica saiu do Dragão a golear, a cilindrar, a mandar no clássico como quem manda em Portugal.
Marquem na agenda. Domingo, à noite, o Dragão vai arder. E não é de alegria portista.

