Durante mais de duas décadas, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo foram comparados por tudo aquilo que fizeram dentro de campo. Agora, quando ambos se aproximam do fim das respetivas histórias internacionais, até a forma como enfrentam a despedida parece colocá-los em extremos opostos. Na mesma noite em que Messi recebeu o amor de 85 mil adeptos e emocionou os companheiros na Argentina, Ronaldo publicava um longo comunicado para pedir desculpa pela saída do estágio de Portugal, mas também para explicar por que considera que Jorge Jesus lhe “falhou com a palavra”.
Talvez não pudesse existir uma imagem mais simbólica das diferenças que sempre marcaram os dois maiores futebolistas da sua geração.
De um lado, Buenos Aires, um estádio Monumental em festa, lágrimas, fogo de artifício e Lionel Messi a despedir-se.
Do outro, Cristiano Ronaldo envolvido numa das maiores polémicas da sua longa passagem pela Seleção Nacional.
Depois de tantos anos a serem comparados por golos, Bolas de Ouro, Ligas dos Campeões e recordes, Messi e Ronaldo podem estar agora a construir finais internacionais radicalmente diferentes.
Messi despediu-se perante 85 mil pessoas
O Mundial deste verão parecia destinado a representar um momento de viragem para ambos.
Messi e Ronaldo participaram pela sexta vez num Campeonato do Mundo, já na fase final das respetivas carreiras.
A Argentina ficou a um passo de mais um título, acabando derrotada na final. Portugal despediu-se nos oitavos de final diante da Espanha, que viria a conquistar a competição.
A possibilidade de ambos encerrarem aí as respetivas carreiras internacionais ganhou força.
Messi decidiu fazê-lo.
E a despedida foi preparada como uma celebração de uma carreira histórica.
Diante de cerca de 85 mil adeptos no Monumental, o argentino marcou, voltou a vencer com a seleção e recebeu uma enorme manifestação de carinho.
Alguns dos próprios companheiros não conseguiram esconder a emoção perante a despedida daquele que foi durante tantos anos a principal referência da equipa.
Até na despedida Messi falou dos outros
Habitualmente reservado, o vencedor de oito Bolas de Ouro fez um discurso mais longo do que é habitual.
E, mesmo numa noite construída em torno da sua despedida, fez questão de destacar os companheiros.
“Foi um privilégio e uma honra partilhar o campo com todos os meus companheiros e partilhar tantas coisas das nossas vidas juntos.”
Messi recordou ainda o papel que os colegas tiveram na concretização do grande sonho da sua carreira internacional: conquistar o Campeonato do Mundo.
Numa noite em que poderia falar exclusivamente sobre si próprio, Messi preferiu falar também do coletivo.
E é precisamente aí que o contraste com aquilo que está a acontecer em Portugal se torna impossível de ignorar.
Enquanto Messi se despedia, Ronaldo explicava a saída da Seleção
Na mesma altura, Cristiano Ronaldo tinha uma preocupação completamente diferente.
O capitão português divulgou um extenso comunicado para explicar aquilo que aconteceu durante o último estágio da Seleção e as razões que o levaram a abandonar a concentração.
Ronaldo tinha ficado no banco diante da Noruega. Jorge Jesus mandou-o aquecer, mas acabou por não o utilizar.
Segundo Cristiano, o selecionador tinha-lhe dito anteriormente que disputaria aproximadamente 30 minutos.
Para Ronaldo, foi a primeira quebra de palavra.
Seguiram-se reuniões privadas e um entendimento sobre aquilo que Jorge Jesus deveria esclarecer publicamente. Quando o selecionador apareceu perante os jornalistas com um discurso que Ronaldo considerou diferente daquilo que tinha sido combinado, CR7 entendeu que existira uma segunda quebra de confiança.
E decidiu abandonar o estágio da Seleção.
Ronaldo pede para ser castigado, mas volta a apontar o dedo a Jesus
Depois de a polémica ter explodido, Ronaldo reconheceu que não deveria ter abandonado os companheiros.
No comunicado, pediu desculpa aos adeptos e aos jogadores e assumiu que a Federação Portuguesa de Futebol deve avaliar disciplinarmente o seu comportamento.
“A consequência deste meu ato deve ser avaliada e punida pela Federação Portuguesa de Futebol. Entendo que a punição não deve ter atenuantes.”
Ronaldo reconheceu inclusivamente que o facto de ser capitão deve funcionar como agravante e não como proteção.
Mas o pedido de desculpas não significou que retirasse as críticas a Jorge Jesus.
CR7 voltou a insistir que nunca interferiu nas decisões técnicas ou táticas dos treinadores com quem trabalhou, mas deixou clara a razão que o levou a considerar impossível continuar naquele estágio:
“Respeito a decisão e quando me faltam à palavra, sinto que o meu lugar não é ali.”
Ou seja, Ronaldo admite que errou ao abandonar Portugal, mas continua a considerar que Jorge Jesus foi responsável pela quebra de confiança que desencadeou tudo.
Jorge Jesus continua a ganhar sem Ronaldo
A situação torna-se ainda mais delicada porque os resultados não obrigaram o selecionador a procurar desesperadamente uma solução para recuperar o capitão.
Jorge Jesus começou a sua passagem pela Seleção com quatro vitórias consecutivas.
Portugal continuou a ganhar depois da saída de Cristiano e os jogadores que receberam oportunidades aproveitaram-nas.
Isso coloca Ronaldo numa situação que raramente enfrentou durante a carreira internacional: a Seleção está a demonstrar que consegue vencer sem ele.
Durante muitos anos, todo o peso desportivo que acompanhava Cristiano tornava praticamente impossível separar os problemas extrafutebol daquilo que oferecia dentro de campo.
Agora, aos 41 anos, essa equação é necessariamente diferente.
Messi escolheu o momento para sair. Ronaldo continua a lutar contra o fim
Talvez seja esta a maior diferença entre aquilo que está a acontecer aos dois.
Messi decidiu quando queria terminar.
Preparou a despedida, entrou em campo pela última vez perante os adeptos argentinos e recebeu uma enorme homenagem.
Ronaldo, pelo contrário, ainda não parece preparado para transformar a sua presença na Seleção numa simples cerimónia de despedida.
O próprio português deixou isso muito claro no comunicado.
Admitiu que haverá tempo para um ou mais jogos de homenagem, mas garantiu que, quando pensa atualmente na Seleção, continua a pensar em competir.
Se estiver fisicamente bem, jogar regularmente pelo Al Nassr e cumprir a eventual suspensão aplicada pela FPF, Cristiano garante que continuará disponível para representar Portugal.
O problema é perceber em que condições.
Ronaldo terá de aceitar aquilo que Messi já aceitou: o fim aproxima-se
A carreira internacional de Cristiano Ronaldo não tem necessariamente de terminar com esta polémica.
O próprio jogador pretende regressar.
Mas o episódio expôs uma realidade que dificilmente poderá continuar a ser adiada: o estatuto histórico de Ronaldo já não significa automaticamente que Portugal tenha de ser construído à sua volta.
Jorge Jesus terá de decidir se ainda existe um papel desportivo para o capitão.
E Cristiano terá de decidir se está preparado para aceitar esse papel mesmo quando significa ficar no banco, ser substituído ou até aquecer sem entrar.
É uma situação completamente diferente daquela vivida por Messi.
O argentino controlou o momento da despedida.
Ronaldo continua a tentar controlar o momento em que ela acontecerá.
Dois génios, duas despedidas que não podiam ser mais diferentes
Durante praticamente toda a carreira, Messi e Ronaldo fizeram as coisas de maneira diferente.
Personalidades diferentes. Estilos diferentes. Percursos diferentes.
E agora até os últimos capítulos internacionais parecem seguir caminhos opostos.
Messi despediu-se rodeado pelos companheiros, perante 85 mil pessoas e com o Monumental a celebrar aquilo que deixou à Argentina.
Ronaldo passou a mesma noite a explicar por que abandonou os seus companheiros, a pedir desculpa e a acusar o selecionador de lhe ter faltado à palavra.
Isso não apaga aquilo que Cristiano Ronaldo fez por Portugal, nem diminui uma das maiores carreiras internacionais da história do futebol.
Mas aumenta o risco de os últimos capítulos ficarem marcados por uma guerra que poderia nunca ter existido.
Messi já escolheu a imagem com que se despediu da Argentina.
Cristiano Ronaldo ainda vai a tempo de escolher a sua.


