Portugal ganhou em Oslo, fez uma exibição tática de alto nível e soma seis pontos em seis possíveis na Liga das Nações. Seria de esperar que esta semana se falasse de Gonçalo Ramos, de João Félix, que já leva dois golos, ou de como uma equipa organizada travou Haaland. Não se fala. Fala-se de um homem de 41 anos que passou 90 minutos no banco e saiu do relvado sem olhar para trás.
E é aqui que Jorge Jesus tem um problema que nenhum quadro tático resolve.
A decisão certa que pode sair cara
Vamos ser claros: Jesus fez o que um treinador tem de fazer. Gonçalo Ramos estava a jogar bem, tinha marcado e visto outro golo ser anulado. O jogo pedia equilíbrio, não uma estrela. Jesus foi buscar Vitinha, Leão, Rúben Neves, Trincão e Bernardo e segurou a vitória. Em qualquer outra seleção do mundo, ninguém discutiria esta gestão.
Mas isto é Portugal, e o avançado no banco é Cristiano Ronaldo. A promessa de meia hora não cumprida, o aquecimento sem entrada e a saída direta para o túnel sem agradecer aos adeptos que viajaram até à Noruega transformaram uma vitória numa crise.
Obrigado a pôr Ronaldo a titular
Agora vem a Dinamarca. E Jesus está praticamente obrigado a pôr Ronaldo no onze. Não porque o jogo o exija nem porque Ronaldo seja hoje o melhor avançado disponível, mas porque deixá-lo de fora outra vez abriria uma guerra que o selecionador não pode ganhar.
O próprio Jesus já deixou a porta aberta, com aquele “se calhar” tão típico. Traduzindo: Ronaldo vai jogar. Se não jogar, o selecionador estará a assumir um confronto direto com o capitão, com a máquina mediática que o rodeia e com milhões de adeptos que ainda veem a Seleção através dele.
O problema é que, ao ceder, Jesus passa outra mensagem ao balneário. Gonçalo Ramos marca e sai da equipa. Félix leva dois golos e pode ter de abrir espaço. Que autoridade tem um treinador que prometeu “escolher os melhores para cada jogo” se, três dias depois, o critério volta a ser o nome na camisola?
O elefante no balneário
Há uma verdade que a Federação e grande parte da imprensa continuam a contornar: Ronaldo já devia ter saído da Seleção pelo próprio pé. Depois da eliminação frente a Espanha nos oitavos do Mundial, era o momento natural para uma despedida à altura do melhor jogador português de sempre. Não aconteceu. E cada jogo que passa torna mais provável que o fim seja feio em vez de glorioso.
O próprio Ronaldo disse que seria o primeiro a sair quando não quisessem contar com ele. Domingo, em Oslo, não contaram. A reação foi virar costas aos colegas e aos adeptos. Não é o gesto de quem aceita ser mais um no grupo. É o gesto de quem acha que o grupo lhe deve algo.
Os mil golos são uma meta pessoal legítima. Mas a Seleção não pode ser o palco de uma contagem decrescente individual. Portugal tem uma geração que ganha jogos sem ele, e isso ficou provado precisamente no jogo em que ele não saiu do banco.
Um jogo para decidir quem manda
Quinta-feira, em Copenhaga, não se decide só a liderança do grupo. Decide-se quem manda na Seleção. Se Ronaldo for titular, marcar e sair aplaudido, Jesus ganha tempo e a polémica adormece até ao próximo episódio. Se for titular e não resolver, e o avançado que ganhou em Oslo ficar a ver do banco, as críticas vão cair em cima do selecionador por ter cedido.
Jesus meteu-se num beco sem saída. Tomou a decisão certa na Noruega e agora é quase forçado a tomar a decisão errada na Dinamarca. Tudo por causa de um capitão que devia ter percebido, antes de todos nós, que o seu tempo na Seleção já passou.


