Há uma tendência cada vez mais visível nos relvados que está a levantar questões sobre a segurança dos futebolistas. Em vez das tradicionais caneleiras, alguns jogadores profissionais utilizam proteções tão pequenas que mal ultrapassam o tamanho de um cartão de crédito. Jack Grealish foi um dos nomes que ajudou a popularizar esta moda, que entretanto chegou ao futebol amador e até às camadas jovens. Mas existe uma pergunta inevitável: como é que os jogadores conseguem utilizar equipamentos tão reduzidos se as caneleiras são obrigatórias pelas regras do futebol?
Quem acompanha regularmente os jogos de futebol já terá reparado que alguns jogadores apresentam as meias bastante mais baixas do que o habitual, por vezes enroladas junto aos gémeos, e até com buracos na parte posterior.
O que muitos adeptos desconhecem é que, em determinados casos, os futebolistas escondem debaixo das meias caneleiras minúsculas, que oferecem uma área de proteção bastante inferior à dos modelos tradicionais.
A tendência tem vindo a ganhar popularidade, sobretudo entre jogadores que privilegiam o conforto e a liberdade de movimentos.
No entanto, especialistas e responsáveis de clubes têm alertado para os riscos associados a esta escolha.

As caneleiras são obrigatórias, mas há um detalhe nas regras que permite esta tendência
As caneleiras tornaram-se obrigatórias no futebol em 1990, numa altura em que a crescente intensidade física das competições europeias levantava preocupações relativamente às lesões dos jogadores.
Atualmente, a sua utilização está prevista na Lei 4 das Leis do Jogo, estabelecidas pelo International Football Association Board (IFAB), organismo responsável pelas regras do futebol.
O regulamento determina que as caneleiras devem ser fabricadas num material adequado e apresentar dimensões apropriadas para proporcionar uma proteção razoável.
Contudo, existe um pormenor importante.
A própria Lei 4 estabelece que os jogadores são responsáveis pelo tamanho e pela adequação das caneleiras que utilizam.
Na prática, isto significa que não existe uma dimensão mínima universal expressamente definida no regulamento.
Em declarações à BBC Sport, o IFAB esclareceu que os árbitros apenas têm de verificar se os jogadores estão a utilizar alguma forma de proteção nas canelas.
Consequentemente, mesmo que um futebolista utilize caneleiras extremamente pequenas, os árbitros não estão necessariamente em condições de o obrigar a substituí-las por modelos maiores.
É precisamente esta particularidade das regras que tem permitido a popularização das chamadas microcaneleiras.
Porque é que tantos futebolistas preferem caneleiras minúsculas?
A principal explicação está relacionada com o conforto.
Os futebolistas que optam por proteções reduzidas apontam frequentemente a liberdade de movimentos como um dos principais motivos para abandonarem os modelos tradicionais.
O futebol moderno exige acelerações constantes, mudanças rápidas de direção, movimentos explosivos e uma enorme capacidade de reação.
Nesse contexto, alguns jogadores consideram que equipamentos mais leves e menos volumosos lhes permitem movimentar-se com maior naturalidade.
Embora a redução de peso seja pequena, a sensação de conforto pode fazer diferença para quem passa 90 minutos a correr, acelerar e disputar bolas.
Importa, contudo, distinguir a preferência dos jogadores de uma vantagem desportiva comprovada. A utilização de caneleiras mais pequenas não significa necessariamente que um futebolista se torne mais rápido ou tenha melhor rendimento.
Existe ainda outro fator que ajuda a explicar a tendência: a forma como os jogadores utilizam as meias.
Jack Grealish ajudou a tornar a moda popular
Jack Grealish tornou-se um dos futebolistas mais associados à utilização de meias baixas e caneleiras reduzidas.
O estilo do internacional inglês acabou por chamar a atenção de outros jogadores e adeptos, contribuindo para que esta forma de utilizar o equipamento se tornasse cada vez mais comum.
Atualmente, é possível encontrar futebolistas que preferem manter as meias enroladas junto aos gémeos, em vez de as puxarem até perto dos joelhos.
Ora, a Lei 4 estabelece também que as caneleiras devem estar cobertas pelas meias.
Por isso, quem pretende utilizar meias mais baixas acaba por encontrar nas microcaneleiras uma solução mais fácil de adaptar ao estilo pretendido.
Com proteções tradicionais, maiores e mais compridas, seria necessário utilizar meias suficientemente altas para garantir que toda a caneleira ficava coberta.
Esta combinação de conforto, preferência estética e liberdade de movimentos ajuda a explicar por que motivo a tendência se espalhou do futebol profissional para os campeonatos amadores e de formação.
Mas será que as caneleiras pequenas protegem realmente os jogadores?
É precisamente neste ponto que começam as maiores preocupações.
Embora ainda não exista um estudo aprofundado que compare diretamente a eficácia das microcaneleiras com a dos modelos tradicionais, as recomendações de segurança apontam para riscos acrescidos quando a área protegida é demasiado reduzida.
Em 2024, a Federação Inglesa de Futebol (FA) publicou orientações específicas sobre a utilização deste equipamento.
O organismo alertou que qualquer parte da canela que não esteja coberta fica menos protegida perante impactos.
A FA acrescentou que as microcaneleiras podem aumentar o risco de lesão devido à menor superfície da canela que conseguem proteger.
As recomendações defendem que a segurança deve ser prioritária, procurando garantir que uma parte significativa da canela fica coberta pelo equipamento de proteção.
A questão é especialmente relevante porque as canelas estão frequentemente expostas a contactos diretos com as botas dos adversários, sobretudo em disputas de bola e entradas mais duras.
Uma caneleira demasiado pequena deixa uma área maior da perna vulnerável a impactos.
Lesões graves levaram clubes ingleses a proibir microcaneleiras
As preocupações com a segurança já levaram alguns clubes ingleses a tomar medidas concretas.
Um dos exemplos é o Ilfracombe Town, que decidiu proibir a utilização de microcaneleiras em todas as equipas e escalões do clube.
A decisão surgiu depois de o avançado Riley Malin ter sofrido uma grave lesão numa disputa de bola dividida.
O futebolista sofreu fraturas da tíbia e do perónio, uma lesão que motivou uma reflexão sobre o equipamento de proteção utilizado pelos jogadores.
Embora o episódio tenha contribuído para a decisão do clube, não está demonstrado que a utilização de caneleiras maiores tivesse necessariamente evitado aquela lesão específica.
Outro caso ocorreu no Penistone Church, também em Inglaterra.
Segundo a BBC, em agosto de 2024, o clube tomou uma medida semelhante depois de o jovem Alfie Collins ter sofrido igualmente fraturas da tíbia e do perónio.
O detalhe mais preocupante foi revelado posteriormente.
Durante o intervalo do encontro, o jovem tinha substituído as caneleiras maiores por um par de proteções que, segundo a descrição divulgada, não ultrapassavam o tamanho de um cartão de crédito.
O episódio levou o clube a reforçar as regras internas relativamente ao equipamento de proteção, procurando reduzir a exposição dos jogadores a riscos desnecessários.
Uma moda que também preocupa no futebol de formação
Se no futebol profissional a utilização de microcaneleiras já suscita dúvidas, nas camadas jovens a questão torna-se particularmente sensível.
Os jovens futebolistas tendem a imitar os hábitos e os equipamentos utilizados pelos seus ídolos, desde as botas até à forma como vestem as meias.
Consequentemente, a popularidade das microcaneleiras entre jogadores conhecidos pode incentivar crianças e adolescentes a escolher proteções semelhantes.
O problema é que o tamanho reduzido deixa uma parte considerável da canela sem cobertura.
Embora nenhuma caneleira consiga eliminar completamente o risco de lesão, os modelos com maior superfície de proteção oferecem cobertura a uma área superior da perna.
Por esse motivo, as recomendações da Federação Inglesa apontam para a importância de escolher equipamentos adequados, dando prioridade à segurança em vez da aparência.
Vale a pena trocar as caneleiras tradicionais pelas mais pequenas?
A escolha entre caneleiras tradicionais e modelos reduzidos envolve uma diferença importante entre conforto e proteção.
As microcaneleiras podem proporcionar uma sensação de maior liberdade de movimentos e adaptar-se melhor à preferência de alguns jogadores por meias baixas.
No entanto, deixam uma superfície maior da canela exposta a contactos e impactos.
As regras do futebol não estabelecem uma dimensão mínima universal, mas exigem que o equipamento seja adequado e proporcione proteção razoável.
Para quem pratica futebol, sobretudo nas camadas jovens e nos escalões amadores, a recomendação mais prudente é optar por caneleiras que cubram uma parte significativa da canela, sejam confortáveis e se mantenham corretamente posicionadas durante o jogo.
Afinal, aquilo que parece apenas uma pequena tendência estética pode representar uma diferença importante na proteção das pernas.
E embora jogadores como Jack Grealish tenham ajudado a popularizar as caneleiras minúsculas, os alertas das entidades responsáveis pelo futebol mostram que nem todas as modas dos profissionais devem ser imitadas sem considerar os riscos.

