É um pormenor que se tornou cada vez mais comum nos relvados de todo o mundo. Jogadores como Jude Bellingham, Bukayo Saka e Neymar entram em campo com as meias cheias de buracos, aparentemente feitos de propósito. O fenómeno tem despertado a curiosidade dos adeptos e até provocado críticas de algumas figuras importantes do futebol, incluindo José Mourinho. Mas afinal, porque é que tantos futebolistas cortam as próprias meias antes dos jogos? A explicação está relacionada com o conforto, os músculos e uma teoria que, apesar de popular, ainda não tem comprovação científica sólida.
Nos últimos anos, tornou-se habitual observar jogadores profissionais com vários buracos na parte posterior das meias, sobretudo na zona dos gémeos.
À primeira vista, pode parecer que o equipamento ficou danificado durante o encontro. No entanto, na maioria destes casos, os cortes são feitos intencionalmente pelos próprios futebolistas antes de entrarem em campo.
A tendência começou por chamar a atenção nas principais competições internacionais e acabou por se espalhar a diferentes campeonatos, tornando-se uma imagem cada vez mais familiar no futebol moderno.
Porque é que os jogadores fazem buracos nas meias?
A principal explicação está relacionada com a pressão exercida pelas meias sobre os músculos das pernas.
As meias utilizadas pelos futebolistas profissionais são frequentemente bastante ajustadas, sobretudo na região dos gémeos. Para jogadores com maior desenvolvimento muscular nessa zona, essa compressão pode provocar uma sensação de aperto e desconforto.
Ao fazerem pequenos cortes na parte posterior das meias, os jogadores procuram reduzir essa pressão e permitir que o tecido se adapte melhor à dimensão dos músculos.
A ideia é simples: diminuir a sensação de aperto, melhorar o conforto e evitar que as meias pareçam demasiado restritivas durante os 90 minutos.
Alguns futebolistas acreditam também que esta prática pode ajudar a prevenir cãibras e favorecer a circulação sanguínea.
Contudo, apesar de estas serem explicações frequentemente apresentadas, não existem provas científicas sólidas de que cortar as meias melhore efetivamente a circulação ou reduza o risco de cãibras.
Médico da Premier League explica a verdadeira razão
O tema foi abordado por um elemento sénior da equipa médica de um clube da Premier League, que explicou ao talkSPORT por que motivo tantos jogadores começaram a adotar esta prática.
“Muitos jogadores consideram que as meias atuais são demasiado apertadas e exercem demasiada compressão nas pernas. Alguns associam essa sensação ao aparecimento de cãibras nos gémeos.”
Apesar de reconhecer que a sensação de desconforto pode ser real, o especialista deixou uma ressalva importante.
“Não existem provas científicas sólidas que sustentem isso. Está mais relacionado com a sensação de desconforto. Penso que depois se transforma numa rotina ou numa moda, porque já o fizeram anteriormente e veem outros jogadores fazer o mesmo.”
O responsável médico acrescentou que os fabricantes de equipamentos desportivos não apreciam particularmente esta tendência, uma vez que os cortes alteram a aparência original das meias.
Algumas marcas já começaram, inclusivamente, a estudar alterações aos seus produtos para reduzir a compressão na zona dos gémeos.
“Alguns fornecedores de equipamentos adaptaram as meias para tentar alterar o nível de compressão na zona dos gémeos. Os designers analisam este tipo de ajustes quando desenvolvem os equipamentos para a temporada seguinte.”
Ou seja, embora os jogadores possam sentir-se mais confortáveis com as meias cortadas, não está demonstrado que a prática ofereça vantagens físicas ou desportivas.
Bellingham, Saka e Neymar ajudaram a popularizar a tendência
Entre os futebolistas mais conhecidos por utilizarem meias com buracos encontra-se Jude Bellingham.
O internacional inglês já recorria a esta prática quando representava o Borussia Dortmund e manteve o hábito ao serviço da seleção inglesa, incluindo durante o Mundial de 2022, no Qatar, e o Euro 2024.
Bukayo Saka, outra das principais figuras da seleção inglesa, também foi visto em várias ocasiões com cortes na parte posterior das meias.
O brasileiro Neymar é outro dos jogadores que aderiu à tendência, tal como Kyle Walker, antigo defesa do Manchester City.
O número e a dimensão dos buracos variam de jogador para jogador.
Enquanto alguns preferem fazer apenas um ou dois cortes, outros chegam a apresentar vários buracos distribuídos ao longo da zona dos gémeos.
Um dos primeiros casos a despertar grande atenção aconteceu no Mundial de 2018, na Rússia, quando o internacional inglês Danny Rose entrou em campo com as meias visivelmente cortadas.
Na altura, as imagens provocaram surpresa e alguma confusão entre os adeptos nas redes sociais, que procuravam perceber se o equipamento estava danificado ou se existia alguma razão específica para aquela escolha.
José Mourinho não gostou e deixou uma crítica irónica
Nem todos concordam com esta tendência, e José Mourinho foi uma das figuras mais conhecidas a manifestar publicamente o seu desagrado.
Em fevereiro de 2023, o treinador português utilizou o Instagram para criticar os jogadores que entram em campo com as meias rasgadas.
Mourinho publicou cinco fotografias a preto e branco de futebolistas com vários buracos nas meias, acompanhadas por uma legenda carregada de ironia.
“Lindas meias para o jogo bonito… Aprovadas pelas autoridades do futebol.”
A publicação tornou evidente que o técnico não apreciava a tendência, sobretudo numa modalidade em que o equipamento dos jogadores está sujeito a regras específicas.
O comentário de Mourinho acabou por dar ainda mais visibilidade ao fenómeno e contribuiu para alimentar o debate sobre a necessidade de permitir este tipo de alterações ao equipamento.
Gary Neville também criticou: “Não consigo aceitar isto”
José Mourinho não é a única figura do futebol a questionar a utilização de meias cortadas.
Gary Neville, antigo defesa do Manchester United, também manifestou o seu desagrado durante um episódio do programa Stick to Football.
O antigo internacional inglês começou por criticar o aspeto visual do equipamento.
“Aqueles buracos que fazem na parte de trás das meias, para começar, acho que ficam horríveis. Não dão um aspeto cuidado a um jogador quando entra em campo.”
Neville recordou ainda a disciplina que existia no Manchester United relativamente à apresentação dos jogadores.
Segundo o antigo defesa, os futebolistas eram incentivados a manter a camisola dentro dos calções e as meias devidamente puxadas.
Mas a sua principal crítica esteve relacionada com a justificação apresentada pelos jogadores para cortarem as meias.
“Vou voltar a fazer esta pergunta. Porque é que os jogadores fazem buracos na parte de trás das meias? Sabem porque sou um pouco cético? Porque, em 2024, têm centenas de pares de botas, têm tudo feito à medida.”
Neville questionou ainda a incapacidade das grandes marcas desportivas para produzir meias que se adaptem melhor às pernas dos futebolistas.
“Não acredito que a Nike ou um patrocinador de equipamentos não consiga fazer-lhes umas meias ligeiramente maiores. Não percebo.”
Para o antigo jogador do Manchester United, a solução deveria passar por equipamentos mais adequados, em vez de os futebolistas terem de cortar as próprias meias.
É permitido jogar futebol com as meias cortadas?
Uma das grandes dúvidas relacionadas com esta tendência é saber se os regulamentos permitem que os jogadores entrem em campo com as meias rasgadas.
De acordo com as Leis do Jogo, as meias fazem parte do equipamento obrigatório de qualquer futebolista, juntamente com a camisola, os calções, as caneleiras e o calçado.
No entanto, não existe uma proibição geral expressa de utilizar meias com buracos.
Isso significa que, em princípio, os jogadores podem continuar a recorrer a esta prática, desde que cumpram as restantes exigências relativas ao equipamento.
Os árbitros mantêm, contudo, autoridade para exigir a correção de irregularidades no equipamento dos futebolistas.
Um exemplo aconteceu com Ezequiel Garay, antigo jogador do Valência, que foi obrigado por um árbitro da Liga espanhola a trocar de meias durante um encontro.
O juiz considerou que o equipamento utilizado pelo defesa não respeitava os padrões exigidos naquela situação.
Apesar destes episódios pontuais, a prática continua a ser visível nas principais competições europeias.
Há quem queira proibir definitivamente esta moda
As críticas não se limitam a treinadores e antigos jogadores.
Richard Keys, conhecido apresentador britânico que trabalhou durante vários anos na Sky Sports, também defendeu publicamente a proibição das meias cortadas.
Durante um encontro da Premier League entre Chelsea e Manchester City, Keys recorreu à rede social X para manifestar o seu descontentamento.
“Já chega desta parvoíce. Não há necessidade nenhuma. Os espanhóis proibiram isto, embora Bellingham continue a fazê-lo. Está na altura de fazermos o mesmo.”
A publicação refletiu a posição de quem considera que os jogadores devem respeitar a apresentação tradicional dos equipamentos.
No entanto, apesar das críticas e dos pedidos de proibição, os futebolistas da Premier League continuam a poder utilizar meias com cortes, desde que não violem as regras aplicáveis.
Conforto, superstição ou simplesmente uma moda?
A popularidade das meias cortadas demonstra como pequenos hábitos podem transformar-se rapidamente em tendências no futebol profissional.
Para alguns jogadores, os buracos representam uma tentativa de reduzir a pressão sobre os gémeos e aumentar o conforto durante os encontros.
Para outros, a prática poderá ter-se transformado numa rotina, numa preferência pessoal ou até numa forma de imitar futebolistas de referência.
O próprio especialista médico ouvido pelo talkSPORT admitiu que o fenómeno pode estar mais relacionado com hábitos e moda do que com benefícios físicos comprovados.
O que se sabe é que não existem provas científicas sólidas de que fazer buracos nas meias previna cãibras, melhore a circulação sanguínea ou aumente o rendimento desportivo.
Apesar disso, a tendência continua a conquistar adeptos entre os futebolistas, enquanto treinadores como José Mourinho e antigos jogadores como Gary Neville defendem uma apresentação mais tradicional.
Por isso, da próxima vez que vires um jogador entrar em campo com vários buracos nas meias, já sabes que provavelmente não se trata de um acidente ou de equipamento desgastado.
É uma escolha deliberada que pretende proporcionar maior conforto, mesmo que a sua eficácia continue por demonstrar.

