Rúben Amorim ainda nem sofreu a primeira derrota como treinador do AC Milan, mas a imprensa italiana já começou a formar uma opinião muito concreta sobre o trabalho do português. Ao fim de quatro jornadas da Serie A, há elogios à ideia de jogo e à capacidade para mudar partidas a partir do banco, mas também surge um aviso: o Milan precisa rapidamente de encontrar uma identidade mais clara.
Os rossoneri somam duas vitórias e dois empates e ocupam, nesta fase, o quinto lugar do campeonato. O arranque é positivo em termos de resultados, mas as exibições têm mostrado duas versões bastante diferentes da equipa, algo que ficou particularmente evidente no empate por 2-2 frente à Lazio.
É precisamente essa irregularidade dentro do mesmo jogo que está agora no centro da análise dos principais jornais italianos.
Corriere dello Sport elogia a ideia de jogo de Amorim
O Corriere dello Sport destacou a forma como o Milan conseguiu apresentar momentos de domínio perante a Lazio e considerou positiva a ideia futebolística que Rúben Amorim está a tentar implementar.
O jornal italiano sublinha que, em pouco mais de 90 minutos, foi possível observar duas versões muito distintas da equipa: uma completamente dominada durante a primeira parte e outra capaz de assumir o controlo depois do intervalo.
«Em pouco mais de noventa minutos, Amorim mostrou-nos o princípio inspirador do seu futebol, o jogo dominante, e também a versão oposta, a equipa dominada.»
A leitura é, por isso, simultaneamente positiva e reveladora de um problema que Amorim ainda terá de resolver: conseguir que a melhor versão do Milan apareça durante períodos mais longos.
Primeira parte contra a Lazio levantou muitas dúvidas
O último encontro mostrou perfeitamente essa dualidade.
O Milan chegou ao intervalo a perder por 2-0 diante da Lazio, depois de uma primeira parte em que a equipa da casa foi claramente superior.
Rúben Amorim reagiu com alterações e o cenário mudou completamente após o descanso.
Diego Moreira entrou e marcou dois golos em apenas dois minutos, permitindo aos rossoneri recuperar para 2-2 e manter a invencibilidade.
A capacidade do treinador português para mexer na equipa foi novamente elogiada, mas levantou também outra questão: se as alterações funcionam tão bem, estará Amorim a escolher corretamente o onze inicial?
Gazzetta levanta dúvida: génio nas substituições ou erro no onze?
A Gazzetta dello Sport colocou precisamente essa questão.
O jornal recorda que Amorim já conseguiu alterar positivamente o rumo de mais do que um encontro através das substituições, mas alerta para o perigo de o Milan depender constantemente das correções feitas ao intervalo ou durante a segunda parte.
A publicação compara a discussão à clássica questão do ovo e da galinha: é Amorim brilhante a corrigir os jogos ou algumas dessas correções tornam-se necessárias porque as escolhas iniciais não são as melhores?
A análise deixa um aviso importante.
«Dar significado aos jogos apenas na segunda parte, e quase exclusivamente através das substituições, parece uma limitação evidente a longo prazo.»
A razão é simples: haverá partidas em que as mudanças não produzirão o mesmo efeito e os pontos perdidos durante períodos menos conseguidos poderão tornar-se decisivos.
«Demasiadas experiências»: Corriere della Sera pede identidade
O Corriere della Sera foi ainda mais direto na análise.
O jornal considera o projeto de Amorim interessante e complexo, mas entende que chegou o momento de o português definir melhor a identidade da equipa e perceber quais são realmente as suas opções mais fortes.
A utilização de Diego Moreira foi apresentada como exemplo.
Depois de ter sido utilizado pela direita em Turim, o antigo jogador do Benfica apareceu pela esquerda frente à Lazio e teve um impacto devastador, beneficiando também do facto de atuar sobre o lado do seu pé preferencial.
Para o jornal italiano, este tipo de detalhe demonstra que Amorim ainda está numa fase de experiências.
«Depois de quatro jogos, é altura de encontrar uma identidade clara para o seu Milan, também ao nível dos jogadores. Até agora, demasiadas experiências.»
A imprensa italiana vê qualidade, mas quer certezas
Existe um ponto de consenso entre as várias análises: o Milan tem qualidade suficiente para construir um projeto competitivo.
A revolução realizada durante o verão trouxe vários jogadores e deu a Amorim ferramentas para trabalhar, apesar de alguns jornais considerarem que o mercado não ficou completamente fechado em todas as posições desejadas.
O problema, nesta fase, não parece ser a falta de talento.
É sobretudo a falta de certezas.
A imprensa italiana quer perceber qual é o verdadeiro onze de Amorim, quais são as funções de cada jogador e até que ponto o treinador português conseguirá reduzir a diferença entre os melhores e os piores momentos da equipa.
Arranque no Milan é muito melhor do que no Manchester United
A comparação com a última experiência de Amorim é inevitável.
O português chegou ao Manchester United em novembro de 2024 e deixou o clube em janeiro de 2026, depois de uma passagem marcada por dificuldades em implementar o modelo de jogo de forma consistente.
No início da sua última temporada em Inglaterra, os primeiros quatro jogos da Premier League tiveram um balanço bastante inferior ao atual.
O Manchester United perdeu na estreia com o Arsenal, empatou depois com o Fulham, venceu o Burnley e acabou goleado por 3-0 pelo Manchester City na quarta jornada.
No Milan, o cenário é completamente diferente.
Quatro jogos, duas vitórias, dois empates e nenhuma derrota.
É um começo claramente mais positivo, embora os jornais italianos estejam a exigir rapidamente uma evolução ao nível da consistência.
Benfica será o próximo grande teste
O calendário oferece agora um teste particularmente interessante.
O Milan prepara-se para iniciar a campanha europeia e recebe o Benfica, num encontro que terá inevitavelmente um significado especial para Rúben Amorim.
Depois das dificuldades reveladas durante a primeira parte frente à Lazio e da excelente reação posterior, o jogo europeu poderá servir para perceber se o treinador português começa finalmente a encontrar as certezas que a imprensa italiana reclama.
Ao fim de apenas quatro jogos, a conclusão em Itália parece ser esta: o projeto de Rúben Amorim entusiasma, as suas alterações têm produzido resultados e o Milan continua invicto, mas chegou a altura de reduzir as experiências e encontrar uma identidade clara. Contra o Benfica, haverá mais uma oportunidade para mostrar que essa evolução já começou.

