Há um precedente na história recente da Seleção Nacional que torna impossível ignorar uma pergunta extremamente incómoda depois da saída de Cristiano Ronaldo do estágio: se Ricardo Carvalho foi afastado durante um ano por abandonar a concentração portuguesa em 2011, o que vai fazer agora a Federação Portuguesa de Futebol perante o caso do seu capitão?
Não se trata de comparar carreiras. Não se trata de discutir se Cristiano Ronaldo é o melhor jogador português de sempre, nem de apagar aquilo que fez durante mais de duas décadas com a camisola das Quinas.
Trata-se de algo muito mais simples: as regras são iguais para todos?
Porque Portugal já viveu uma história assustadoramente semelhante. E, nessa altura, a resposta da Federação foi implacável.
Voltemos a 2011: Ricardo Carvalho também bateu com a porta
31 de agosto de 2011.
A Seleção Nacional encontrava-se concentrada em Óbidos antes de um importante encontro diante do Chipre, de qualificação para o Euro 2012.
Ricardo Carvalho era um dos grandes nomes daquela equipa. Internacional consagrado, jogador do Real Madrid, campeão europeu por clubes e um dos melhores defesas portugueses da sua geração.
Durante a preparação da partida, percebeu que poderia não fazer parte do onze escolhido por Paulo Bento.
Sentiu-se desrespeitado.
E foi-se embora.
A própria FPF anunciou então que Ricardo Carvalho se tinha ausentado do estágio “por iniciativa própria e sem comunicar” a decisão à direção federativa ou ao selecionador nacional.
O defesa não viajou com a equipa para Nicósia.
O motivo apresentado posteriormente pelo jogador também é particularmente relevante quando se olha para aquilo que está hoje a acontecer.
Ricardo Carvalho explicou que se tinha sentido desconsiderado e que, naquele momento, sentira que estava “a mais” na Seleção.
Paulo Bento não ficou impressionado com o currículo do jogador.
Classificou a atitude como extremamente grave e chegou a utilizar uma palavra devastadora para descrever aquilo que tinha acontecido: “deserção”.
A FPF não quis saber do estatuto: um ano fora
Menos de duas semanas depois, chegou o castigo.
E foi pesado.
A 13 de setembro de 2011, a Federação Portuguesa de Futebol anunciou o afastamento de Ricardo Carvalho da Seleção Nacional durante um ano.
Não foi apenas isso.
O jogador perdeu igualmente o direito aos prémios que viessem a ser atribuídos em consequência de uma eventual qualificação de Portugal para a fase final do Euro 2012.
Há um pormenor particularmente importante.
O regulamento existente na altura permitia um afastamento que podia chegar aos 24 meses.
A Federação decidiu reduzir a sanção para 12 meses precisamente por ter em consideração o passado desportivo de Ricardo Carvalho.
Ou seja: o enorme currículo do jogador serviu para atenuar a pena. Não serviu para o colocar acima dela.
E agora chegamos a Cristiano Ronaldo
Quinze anos depois, a Federação encontra-se perante um problema que contém paralelismos impossíveis de ignorar.
Cristiano Ronaldo foi suplente diante da Noruega e não entrou.
Seguiram-se dias de enorme tensão com Jorge Jesus, reuniões, declarações públicas e uma conferência de imprensa explosiva do selecionador.
Depois, aconteceu aquilo que ninguém esperava.
Na véspera de Portugal defrontar a Dinamarca num jogo oficial da Liga das Nações, Cristiano Ronaldo abandonou o estágio.
Não estamos perante uma especulação de jornalistas.
Foi o próprio Ronaldo quem anunciou publicamente a decisão.
O capitão explicou que, depois da conferência de imprensa de Jorge Jesus e de uma conversa com Pedro Proença, tinha decidido deixar a concentração da Seleção Nacional.
E prometeu que, “a seu tempo”, contará aos portugueses as razões que estiveram por detrás da decisão.
Mas há uma pergunta que a Federação não pode simplesmente empurrar para debaixo do tapete.
O abandono foi ou não disciplinarmente justificado?
O regulamento atual é desconfortavelmente claro
A comparação com Ricardo Carvalho não vive apenas do passado.
O atual Regulamento Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol contém uma norma específica sobre esta matéria.
O artigo 160.º, relativo à “Falta de comparência ou abandono de atividade das seleções”, estabelece que um jogador regularmente convocado que abandone ou não compareça injustificadamente a um treino, jogo ou atividade das seleções nacionais pode ser sancionado.
E a moldura não é simbólica.
A suspensão prevista vai de um a seis meses.
Sendo jogador profissional, está ainda prevista uma multa entre cinco e dez unidades de conta.
Mais: o mesmo artigo estabelece que a ausência ou abandono determina a suspensão preventiva automática nos termos previstos pelo próprio Regulamento.
A palavra decisiva, naturalmente, é “injustificadamente”.
E é precisamente por isso que a FPF tem agora uma obrigação que não pode evitar: esclarecer publicamente qual é o enquadramento disciplinar da saída de Cristiano Ronaldo.
Se houve autorização, a Federação tem de explicar
A situação contém uma diferença potencialmente fundamental relativamente ao caso Ricardo Carvalho.
Ronaldo afirmou que tomou a decisão depois de conversar com Pedro Proença.
Isso não significa, por si só, que o presidente da FPF tenha autorizado formalmente a saída, nem significa automaticamente que ela esteja disciplinarmente justificada.
Mas torna essa resposta absolutamente essencial.
Pedro Proença autorizou Cristiano Ronaldo a abandonar o estágio?
A FPF considera a saída justificada?
Foi aberto algum procedimento disciplinar?
Foi apreciada a eventual aplicação do artigo 160.º?
São perguntas legítimas porque existe um precedente histórico e existe uma norma disciplinar atualmente em vigor.
Não basta dizer que Cristiano Ronaldo é uma lenda.
Ricardo Carvalho também tinha um passado extraordinário na Seleção quando foi castigado.
Ricardo Carvalho sentiu-se desrespeitado. Isso não o salvou
Este é provavelmente o paralelismo mais desconfortável de todos.
Ricardo Carvalho não abandonou Portugal porque não gostava da Seleção.
Não o fez porque não queria representar o país.
Segundo explicou posteriormente, saiu porque se sentiu desrespeitado.
Considerava que, depois de tudo aquilo que tinha feito pela equipa nacional, merecia outro tratamento.
É impossível não encontrar ecos dessa discussão no caso atual.
Também Cristiano Ronaldo poderá considerar que foi desrespeitado. Também poderá entender que Jorge Jesus não cumpriu aquilo que lhe tinha transmitido. Também poderá ter razões pessoais para estar profundamente magoado.
Mas Ricardo Carvalho também tinha razões.
E a Federação de 2011 separou duas coisas: compreender o descontentamento do jogador e aceitar que ele abandonasse unilateralmente uma concentração da Seleção.
Foi castigado durante um ano.
O precedente torna qualquer tratamento especial explosivo
Cristiano Ronaldo não é Ricardo Carvalho.
Tem mais internacionalizações, mais golos, mais títulos pela Seleção e uma dimensão histórica sem comparação no futebol português.
Mas essa diferença torna a questão ainda mais importante, não menos.
Porque uma Federação credível não pode ter um regulamento para os jogadores normais e outro para Cristiano Ronaldo.
O estatuto pode ser considerado na graduação de uma eventual pena. O passado de um jogador pode ser uma circunstância relevante. Foi precisamente isso que aconteceu com Ricardo Carvalho.
O que seria muito mais difícil de explicar seria a inexistência de qualquer apreciação disciplinar apenas porque o protagonista se chama Cristiano Ronaldo.
Se a saída foi autorizada ou considerada justificada, diga-se claramente.
Se não foi, então a FPF terá de explicar por que motivo o artigo 160.º não deve produzir consequências.
Em 2011 chamaram-lhe “deserção”
Há ainda uma diferença brutal na reação institucional.
Quando Ricardo Carvalho saiu, Paulo Bento não tentou transformar o episódio numa questão menor.
Chamou-lhe um ato extremamente grave e falou em “deserção”.
A Federação agiu.
Aplicou o regulamento.
E nem sequer o enorme passado do central foi suficiente para evitar uma sanção.
Hoje, perante Cristiano Ronaldo, assiste-se a reuniões, tentativas de reconciliação, mediações e esforços para evitar que a carreira internacional do capitão termine desta maneira.
Tudo isso pode ser compreensível do ponto de vista humano.
Mas existe uma fronteira que a Federação não pode atravessar sem colocar em causa a sua própria autoridade.
Reconciliação é uma coisa. Disciplina é outra.
O pedido de desculpas chegou três anos depois
A história de Ricardo Carvalho tem ainda um último capítulo que merece ser recordado.
Em outubro de 2014, depois de mais de três anos afastado da Seleção, o defesa regressou e pediu publicamente desculpa pelo comportamento de 2011.
Reconheceu que tinha cometido um erro ao abandonar o estágio e admitiu que ele próprio tinha sido o principal prejudicado pela decisão.
O episódio não destruiu a sua carreira nem apagou aquilo que tinha feito por Portugal.
Mas houve consequências.
E houve responsabilidade.
É aqui que Cristiano Ronaldo e a FPF ficam encostados à parede
Ninguém pode afirmar neste momento, sem conhecer o enquadramento disciplinar completo, que Cristiano Ronaldo tem obrigatoriamente de receber uma suspensão.
Isso seria juridicamente precipitado.
O artigo 160.º fala expressamente num abandono “injustificado”, e será necessário perceber em que condições a saída aconteceu e aquilo que foi acordado na conversa com Pedro Proença.
Mas também já não é possível fingir que a questão não existe.
Existe um regulamento.
Existe um precedente.
E existe um capitão que confirmou publicamente que decidiu abandonar um estágio antes de dois jogos oficiais da Seleção Nacional.
Em 2011, Ricardo Carvalho percebeu que poderia não ser titular, sentiu-se desrespeitado e foi embora.
A FPF afastou-o durante um ano.
Em 2026, Cristiano Ronaldo entrou em conflito com o selecionador, abandonou a concentração e Portugal continuou a competir sem ele.
Agora é a Federação que tem de responder.
A pergunta que Pedro Proença não pode evitar
O legado de Cristiano Ronaldo não está em discussão.
Mas talvez esteja em discussão algo ainda mais importante para quem dirige o futebol português: a igualdade perante as regras.
Se a Federação concluir que a saída foi justificada, deve explicar aos portugueses porquê.
Se concluir que não foi, terá de aplicar o seu próprio regulamento e assumir as consequências dessa decisão, independentemente do nome escrito nas costas da camisola.
Porque Ricardo Carvalho também tinha história.
Também tinha estatuto.
Também se sentiu desrespeitado.
E também abandonou a Seleção.
A diferença é que, em 2011, a Federação não hesitou: um ano de afastamento.
Quinze anos depois, Cristiano Ronaldo colocou a FPF perante um teste que vai muito além de Ronaldo, Jorge Jesus ou Pedro Proença.
É um teste à própria credibilidade da instituição.
Se as regras mudam consoante o tamanho da lenda, então deixam de ser regras. Passam a ser privilégios.


