Cristiano Ronaldo perdeu o apoio dos portugueses após abandonar a Seleção?
Durante mais de duas décadas, imaginar a Seleção Nacional sem Cristiano Ronaldo parecia impossível. Hoje, pela primeira vez, a pergunta já não é como Portugal sobreviverá sem ele. É outra, muito mais desconfortável: Cristiano Ronaldo estará preparado para perceber que o país, o selecionador e até os próprios companheiros já aprenderam a seguir em frente?
Cristiano, qual é a sensação de saber que já quase ninguém parece disposto a lutar para que continues a ser aquilo que foste durante vinte anos?
Ninguém te vai dizer isto desta forma, naturalmente.
Jorge Jesus garante que a porta permanece aberta. Nuno Mendes diz que te receberia de braços abertos. Pedro Proença procura transformar a maior crise recente da Seleção num “mal-entendido” e a Federação trabalha para aproximar novamente as partes.
Mas no futebol existem duas linguagens.
Há aquilo que se diz diante das câmaras, onde todas as palavras são medidas. E depois há aquilo que dizem os acontecimentos.
E esses estão a contar uma história bastante diferente.
Saíste e Portugal continuou
Abandonaste o estágio em Copenhaga no dia 30 de setembro, na véspera de um jogo oficial, depois de dias marcados pela polémica em torno da tua utilização.
Fizeste-o através de um comunicado no qual prometeste explicar “a verdade” aos portugueses “a seu tempo”.
Essa explicação ainda não chegou.
Entretanto, o ruído em teu redor não desapareceu.
Georgina Rodríguez publicou uma crítica dirigida a Jorge Jesus e acabou por apagá-la. Edu Aguirre, jornalista espanhol conhecido pela proximidade contigo, apareceu no El Chiringuito a falar numa alegada “traição” do selecionador. E tu próprio colocaste um “gosto” numa publicação com declarações de Felipe Melo fortemente críticas da forma como foste tratado e dos teus próprios companheiros de Seleção.
Enquanto tudo isto acontecia fora das quatro linhas, Portugal continuou a jogar.
E continuou a ganhar.
Há um dado muito mais doloroso do que qualquer suplência
Durante praticamente vinte anos, criticar Cristiano Ronaldo em Portugal aproximava-se de uma espécie de heresia futebolística.
Hoje, essa realidade parece ter mudado.
Segundo uma sondagem da Pitagórica divulgada no contexto desta polémica, 71% dos inquiridos consideraram má ou muito má a decisão de abandonares a Seleção.
Mais significativo ainda: apenas 14% davam razão a Cristiano Ronaldo no conflito com Jorge Jesus, enquanto 42% se colocavam do lado do selecionador.
E quando a questão passa para uma hipotética escolha entre treinador e jogador, o resultado torna-se ainda mais desconfortável: cerca de dois terços escolheriam Jorge Jesus.
Nem entre os adeptos do Sporting, o clube onde cresceste e de onde partiste para conquistar o mundo, o cenário seria suficiente para inverter claramente esta discussão.
E há outro número revelador. Entre aqueles que continuam a defender a tua convocatória, apenas uma pequena percentagem te considera um titular indiscutível.
Talvez seja esta a verdadeira mudança.
Os portugueses podem continuar a querer Cristiano Ronaldo na Seleção sem quererem que a Seleção continue a ser construída em torno de Cristiano Ronaldo.
Deixaram de chamar-te indispensável. Agora és o “símbolo”
Repara também na palavra escolhida repetidamente para falar de ti.
Jorge Jesus chama-te “símbolo”. Bruno Fernandes diz que nunca deixarás de ser o maior símbolo da Seleção. João Cancelo também recorreu à dimensão simbólica daquilo que representas.
“Símbolo” é uma palavra bonita. É respeitosa. Reconhece tudo aquilo que fizeste.
Mas é também uma palavra curiosa.
Os símbolos pertencem à história. Estão nas bandeiras, nas fotografias, nas estátuas e nos museus.
O que praticamente ninguém disse publicamente durante esta crise foi outra coisa:
“Precisamos do Cristiano.”
Também quase ninguém disse:
“Sem Ronaldo somos mais fracos.”
Ou:
“Cristiano faz-nos falta dentro de campo.”
Dizem que és importante. Dizem que és uma lenda. Dizem que és um símbolo.
Mas ser importante já não é necessariamente ser imprescindível.
A frase mais dura de Jorge Jesus pode ter parecido um elogio
Há ainda uma declaração de Jorge Jesus particularmente reveladora:
“O Cris é que vai decidir.”
À primeira vista, parece uma enorme demonstração de respeito.
Mas também admite outra leitura.
Se quiseres regressar, a porta está aberta. Não necessariamente porque Portugal não consiga viver sem ti, mas porque ninguém quer carregar para sempre o peso histórico de ter sido o homem que fechou definitivamente a porta a Cristiano Ronaldo.
Jorge Jesus também deixou outra coisa clara: não pretende pedir desculpa pelas suas decisões enquanto selecionador.
É provavelmente aqui que está a verdadeira mudança de poder.
Podes continuar a ser convocável. Mas já não és intocável.
Nada disto apaga Cristiano Ronaldo
E há uma distinção fundamental que importa fazer.
Nada do que aconteceu nas últimas semanas apaga aquilo que fizeste pela Seleção Nacional.
Os golos, as internacionalizações, o Euro 2016, as Ligas das Nações, os recordes e duas décadas a transportar o nome de Portugal pelo futebol mundial não desaparecem porque abandonaste uma concentração.
O teu lugar na história está garantido.
Mas uma carreira também é recordada pela forma como termina.
E este capítulo está a ser escrito, em grande medida, por ti.
Não foi Jorge Jesus que abandonou uma concentração na véspera de um jogo oficial.
Não foi Pedro Proença.
Não foram Gonçalo Ramos, Bruno Fernandes ou Vitinha.
Foste tu.
Podes ter razões que os portugueses ainda desconhecem. Aliás, prometeste revelá-las. Quando o fizeres, talvez alguns destes acontecimentos tenham de ser interpretados de maneira diferente.
Mas até esse momento chegar, aquilo que existe é aquilo que todos viram.
Agora tens de escolher como queres sair
A próxima convocatória poderá oferecer uma oportunidade para encerrar esta crise.
E, caso Jorge Jesus volte a chamar-te, existirão essencialmente dois caminhos.
Podes regressar, aceitar que aos 41 anos haverá jogos em que és titular, outros em que entras e eventualmente alguns em que permaneces no banco. Podes ajudar Gonçalo Ramos, Rafael Leão, João Félix e todos aqueles que terão de carregar Portugal quando já não estiveres lá.
Podes despedir-te como a maior figura da história da Seleção.
Ou podes continuar à espera de que Portugal te peça para regressar nas tuas condições.
E é aqui que talvez esteja a maior surpresa de toda esta história.
Portugal não parece estar a pedir.
Continua a respeitar-te. Continua a reconhecer-te. Continua a agradecer-te.
Mas está a seguir em frente.
Durante vinte anos, Portugal perguntou o que faria quando Cristiano Ronaldo desaparecesse da Seleção.
Talvez a resposta tenha finalmente chegado.
Joga.
E isso, Cristiano, poderá ser muito mais difícil de aceitar do que qualquer noite passada no banco de suplentes.


