A guerra entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus ganhou um novo protagonista. Luís Miguel Henrique, advogado do selecionador nacional, deixou duras críticas ao capitão da Seleção e acusou-o de estar a destruir o próprio legado.
“Cristiano Ronaldo com as suas ações, os seus comportamentos e a obsessão por determinadas métricas, está a conseguir o que nenhum adversário conseguiu: estragar a nossa capacidade de recordar tudo o que de bom nos deu”, escreveu.
O advogado foi mais longe e apontou o dedo ao círculo próximo do jogador: “Rodeia-se cada vez mais de quem lhe diz o que quer ouvir e cada vez menos de quem lhe diz o que precisa de ouvir. É a sina dos deuses e dos autocratas: acabam sozinhos no Olimpo, cercados de espelhos.”
Um recado com destinatários
As palavras de Luís Miguel Henrique dificilmente são inocentes. No comunicado de 6 de outubro, em que explicou a saída do estágio, Ronaldo revelou que as conversas com Jorge Jesus foram acompanhadas por Simão Coutinho, diretor desportivo do Al Nassr, e que as notas que o selecionador deveria ler na conferência de imprensa foram trabalhadas com Tiago Craveiro e validadas pelo próprio jogador. Quando o advogado fala de quem rodeia Ronaldo, é difícil não ver ali uma referência a esse núcleo.
Também a “obsessão por determinadas métricas” tem leitura evidente. Ronaldo persegue publicamente a marca dos mil golos na carreira, e a disputa por minutos na Seleção, ponto de partida de toda esta polémica, é vista por muitos como parte dessa corrida.
Luís Miguel Henrique, advogado de Jorge Jesus: "Cristiano Ronaldo com as suas ações, os seus comportamentos e a obsessão por determinadas métricas, está a conseguir o que nenhum adversário conseguiu: estragar a nossa capacidade de recordar tudo o que de bom nos deu. Rodeia-se cada vez mais de quem lhe diz o que quer ouvir e cada vez menos de quem lhe diz o que precisa de ouvir. É a sina dos deuses e dos autocratas: acabam sozinhos no Olimpo, cercados de espelhos."
— Cabine Desportiva (@CabineSport) October 13, 2026
Sai do Record por causa de Ronaldo
As críticas não ficaram por aqui. Luís Miguel Henrique, que assinava no Record o espaço “Advogado do Diabo”, anunciou que vai deixar de escrever a sua crónica semanal no jornal, “não por imposição de ninguém, mas por mera e pura decisão pessoal”.
O motivo é o próprio Ronaldo. “Os factos para mim são muito simples – Cristiano Ronaldo é acionista de referência da Medialivre, proprietária deste jornal. Com o capitão em rota de colisão com Jorge Jesus e por via disso comigo próprio, não me ficaria bem, seria até vergonhoso, eu continuar a colaborar e ser remunerado por uma empresa por si participada.”
E deixou uma declaração de princípios que muitos leram como novo recado ao capitão: “Não existe independência intelectual sem independência financeira. Quem opina sobre o poder não pode depender do poder sobre o qual opina. É dessa amarra que, desde já, prefiro libertar-me, para que ninguém, seja ele quem for, ache ou sonhe que tem a capacidade de vir a infligir-me alguma ‘consequência’. A liberdade que só se exerce quando não custa nada chama-se conveniência. E eu nunca escrevi por conveniência.”
Luís Miguel Henrique, advogado de Jorge Jesus, anunciou que vai deixar de escrever a sua crónica semanal no Jornal Record "não por imposição de ninguém, mas por mera e pura decisão pessoal".
"Os factos para mim são muito simples – Cristiano Ronaldo é acionista de referência da Medialivre, proprietária deste jornal. Com o capitão em rota de colisão com Jorge Jesus e por via disso comigo próprio, não me ficaria bem, seria até vergonhoso, eu continuar a colaborar e ser remunerado por uma empresa por si participada.
Não existe independência intelectual sem independência financeira. Quem opina sobre o poder não pode depender do poder sobre o qual opina. É dessa amarra que, desde já, prefiro libertar-me, para que ninguém, seja ele quem for, ache ou sonhe que tem a capacidade de vir a infligir-me alguma "consequência". A liberdade que só se exerce quando não custa nada chama-se conveniência. E eu nunca escrevi por conveniência."
— Cabine Desportiva (@CabineSport) October 13, 2026
O problema que ninguém queria nomear
A saída põe a nu uma questão que pairava sobre a cobertura do caso: Ronaldo é acionista da Medialivre, grupo dono do Record, do Correio da Manhã e da CMTV, alguns dos meios que mais têm acompanhado a guerra com Jesus. Ao sair pelo próprio pé, o advogado do selecionador evita qualquer acusação de conflito de interesses, mas deixa outra pergunta no ar: quantas vozes críticas se sentem livres para escrever sobre Ronaldo nos jornais de que ele próprio é dono?
Reconciliação cada vez mais longe
Enquanto isso, a Federação, pela voz de Pedro Proença, continua a preparar o regresso do capitão já em novembro. Ronaldo está suspenso preventivamente e aguarda uma decisão disciplinar. Mas com o advogado do selecionador a comparar Ronaldo a um autocrata cercado de espelhos e a bater com a porta de um jornal por causa dele, a pergunta impõe-se: como será a primeira conversa entre capitão e selecionador quando Ronaldo voltar à Cidade do Futebol?


