A polémica que envolve Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus trouxe novamente à superfície vários episódios do passado do capitão português. E há um, ocorrido durante a segunda passagem pelo Manchester United, que ganha agora uma dimensão completamente diferente. Segundo uma revelação publicada na Alemanha, Ronaldo terá apresentado a Ralf Rangnick uma condição absolutamente invulgar sobre os jogos em que não fosse titular.
Cristiano Ronaldo nunca escondeu que quer jogar sempre.
Foi uma das características que ajudaram a transformar o português num dos melhores futebolistas da história, mas também esteve na origem de alguns dos momentos de maior tensão com os treinadores que encontrou ao longo da carreira.
E a atual polémica na Seleção Nacional, depois de ter ficado no banco frente à Noruega e posteriormente abandonado o estágio de Portugal, voltou a colocar essas situações debaixo dos holofotes.
Uma das mais surpreendentes terá acontecido no Manchester United.
Ronaldo tinha uma ideia muito particular sobre ficar no banco
Cristiano Ronaldo regressou a Old Trafford em 2021, 12 anos depois de ter deixado o Manchester United para representar o Real Madrid.
O regresso foi recebido em ambiente de enorme entusiasmo. Ronaldo continuava a ser uma das maiores estrelas do futebol mundial e regressava ao clube onde tinha conquistado três Premier League e se transformado numa superestrela.
Mas a temporada rapidamente se tornou complicada.
Ole Gunnar Solskjaer acabou despedido poucos meses depois e o Manchester United entregou provisoriamente o comando da equipa a Ralf Rangnick.
Foi precisamente durante esse período que terão surgido divergências entre Ronaldo e o técnico alemão.
“Eu jogo quatro em cada cinco jogos”
Segundo uma informação posteriormente publicada pelo jornal alemão “Bild”, Cristiano Ronaldo terá explicado diretamente a Rangnick aquilo que pretendia relativamente à gestão dos seus minutos.
A alegada exigência era muito concreta.
Ronaldo estaria disposto a descansar num em cada cinco encontros, mas não queria passar esse jogo sentado no banco de suplentes.
A frase atribuída ao português é particularmente reveladora:
“Eu digo-te como fazemos: jogo quatro em cada cinco jogos. Tu decides qual é o jogo em que não jogo. Mas não fico sentado no banco. Vejo o jogo em casa pela televisão.”
Ou seja, de acordo com esta versão, Ronaldo não estaria a exigir jogar absolutamente todos os encontros.
Estaria disposto a aceitar uma gestão física e a ficar de fora de determinados jogos. Aquilo que não queria era ser convocado para depois assistir à partida no banco.
Uma posição que ganha particular interesse perante tudo aquilo que aconteceu recentemente na Seleção Nacional.
O episódio de Brentford já tinha mostrado a tensão
As diferenças entre os dois ficaram particularmente evidentes em janeiro de 2022, num encontro frente ao Brentford.
Rangnick decidiu retirar Ronaldo aos 71 minutos e o português mostrou imediatamente o seu desagrado.
O treinador alemão acabaria por revelar publicamente a reação que recebeu.
“A única reação que tive foi: ‘Porquê eu? Porque é que me tiraste?’. Tive de tomar a decisão no interesse da equipa e do clube.”
Para Rangnick, tratava-se simplesmente de uma decisão técnica.
Para Ronaldo, sair de campo quando ainda acreditava poder ajudar a equipa estava longe de ser fácil de aceitar.
A relação nunca pareceu verdadeiramente funcionar
O problema entre ambos não se limitou às substituições.
Meses depois, já durante a célebre entrevista concedida por Cristiano Ronaldo a Piers Morgan em novembro de 2022, o português foi extremamente crítico relativamente à decisão do Manchester United de entregar a equipa a Rangnick.
Ronaldo chegou mesmo a questionar as credenciais do alemão.
“Depois do Ole, trazem o diretor desportivo Ralf Rangnick, algo que ninguém percebe. Se nem sequer és treinador, como é que vais ser treinador do Manchester United? Eu nunca tinha sequer ouvido falar dele.”
As declarações tiveram enorme repercussão.
Rangnick, que entretanto assumiu o comando da seleção austríaca, optou por não alimentar a polémica.
Questionado sobre as palavras do português, respondeu que já era selecionador da Áustria e que não lhe competia avaliar o assunto, remetendo essa tarefa para o Manchester United e para os jornalistas.
O passado ganha outra dimensão depois do que aconteceu com Jorge Jesus
Mais de quatro anos depois, aquele alegado pedido feito a Rangnick volta inevitavelmente à discussão por causa dos acontecimentos recentes na Seleção Nacional.
Ronaldo ficou no banco durante toda a vitória de Portugal frente à Noruega, depois de ter realizado exercícios de aquecimento durante largos minutos.
No final, seguiu diretamente para o balneário.
Nos dias seguintes, a situação agravou-se até Cristiano Ronaldo decidir abandonar o estágio da Seleção, prometendo explicar “a seu tempo” aos portugueses as verdadeiras razões da decisão.
Não significa que as duas situações sejam iguais. Os contextos são diferentes e a versão completa sobre aquilo que aconteceu entre Ronaldo e Jorge Jesus ainda não foi apresentada por todas as partes.
Mas existe um ponto de contacto impossível de ignorar: Cristiano Ronaldo sempre teve enormes dificuldades em aceitar um papel secundário.
Uma característica que ajudou a criar a lenda
Há também outra forma de olhar para esta característica.
A obsessão por jogar, marcar e ser decisivo foi precisamente uma das forças que permitiram a Ronaldo manter-se durante mais de duas décadas ao mais alto nível.
Aos 41 anos, continua a competir depois de uma carreira marcada por recordes, títulos e uma longevidade praticamente sem precedentes no futebol moderno.
Essa mentalidade competitiva, contudo, pode tornar-se particularmente difícil de gerir quando um treinador considera que a equipa precisa de outra solução.
Rangnick percebeu isso no Manchester United.
Erik ten Hag também acabaria por entrar num conflito muito mais grave com Ronaldo meses depois.
E agora Jorge Jesus encontra-se no centro de uma crise que poderá mesmo colocar um ponto final na carreira internacional do capitão português.
Ronaldo aceitava não jogar, mas com uma condição
É precisamente aqui que a alegada exigência feita a Rangnick se torna tão curiosa.
Se a informação publicada pelo “Bild” estiver correta, Ronaldo aceitava que o treinador escolhesse um encontro para lhe dar descanso.
O que não aceitava era a condição tradicional de suplente.
Quatro jogos dentro do campo. No quinto, em casa a assistir pela televisão.
Para um futebolista comum seria uma exigência praticamente impensável. Para Cristiano Ronaldo, que durante grande parte da carreira foi tratado como uma figura central em praticamente todas as equipas que representou, revela sobretudo a dimensão do estatuto que acreditava ter conquistado.
E, perante tudo aquilo que está agora a acontecer em Portugal, aquela alegada frase dita a Rangnick volta a soar de forma particularmente atual:
“Tu decides qual é o jogo em que não jogo. Mas não fico sentado no banco.”


