Jorge Mendes surpreendeu ao revelar alguns dos episódios mais desconhecidos das carreiras de João Félix e Bernardo Silva. O empresário português contou que o Benfica contratou João Félix praticamente como um favor à família do jogador e que Bernardo Silva chegou a ser considerado um futebolista sem condições para atingir o mais alto nível. Duas histórias que mostram como alguns dos maiores talentos do futebol português estiveram perto de seguir caminhos completamente diferentes.
As revelações foram feitas durante o fórum “Leading the Game”, integrado no Executive Master in Football Business Administration, organizado pela Católica Porto Business School em colaboração com a Liga Portugal.
Perante os participantes, Jorge Mendes recordou as dificuldades que enfrentou para convencer clubes e dirigentes a apostar em jogadores que, na altura, estavam longe de ser considerados futuras estrelas do futebol mundial.
Entre os exemplos apresentados, destacaram-se dois internacionais portugueses: Bernardo Silva, atualmente no Manchester City, e João Félix, que representa o Al-Nassr.
Jorge Mendes revela que ninguém acreditava no futuro de Bernardo Silva
Uma das histórias mais surpreendentes partilhadas pelo empresário esteve relacionada com os primeiros anos da carreira de Bernardo Silva.
Atualmente reconhecido como um dos jogadores portugueses mais talentosos da sua geração, o médio ofensivo esteve longe de reunir consenso quando ainda procurava afirmar-se no futebol profissional.
Segundo Jorge Mendes, várias pessoas chegaram a aconselhá-lo a desistir de apostar no jogador, por considerarem que Bernardo Silva não tinha condições para alcançar um patamar elevado.
“Há o exemplo do Bernardo Silva. Disseram-me várias vezes: ‘Jorge, esquece, não tens hipótese nenhuma. O Bernardo Silva nunca vai ser um jogador importante. O máximo que pode conseguir é jogar na primeira ou segunda divisão, talvez numa equipa como o Paços de Ferreira'”, recordou o empresário.
As palavras demonstram como a avaliação do talento de Bernardo Silva estava longe de ser consensual nos primeiros anos da sua carreira.
O jogador, que viria a destacar-se no Mónaco e no Manchester City, era visto por algumas pessoas como um futebolista sem as características necessárias para competir entre os melhores.
Jorge Mendes, contudo, manteve a confiança no seu potencial e procurou encontrar um contexto que lhe permitisse desenvolver as suas qualidades.
O problema físico que quase travou a carreira de Bernardo Silva
Durante a intervenção, Jorge Mendes explicou que uma das principais dificuldades enfrentadas pelos jovens jogadores está relacionada com os critérios utilizados pelos clubes para avaliar o seu potencial.
Segundo o empresário, muitas estruturas de formação privilegiam futebolistas fisicamente mais desenvolvidos, deixando para segundo plano jogadores com características técnicas diferenciadas.
Esta realidade poderá prejudicar atletas que, apesar de terem enorme talento, não apresentam uma vantagem física evidente durante os escalões de formação.
“Tudo é muito relativo e torna-se mais complicado quando falamos de jogadores dos escalões jovens, porque há clubes que dão prioridade aos jogadores fisicamente mais fortes”, explicou.
Bernardo Silva foi um dos exemplos utilizados para demonstrar como esta abordagem pode levar a avaliações erradas.
O internacional português destacou-se sobretudo pela inteligência de jogo, qualidade técnica, capacidade de decisão e facilidade em manter a posse de bola.
Características que nem sempre foram devidamente valorizadas durante os primeiros anos da sua carreira.
Mónaco também teve dúvidas e Jorge Mendes precisou de convencer o presidente
As dificuldades de Bernardo Silva não terminaram quando deixou Portugal para reforçar o Mónaco.
Jorge Mendes revelou que o clube francês também chegou a colocar em causa a continuidade do jogador depois da sua primeira temporada.
Segundo o empresário, foi necessário intervir diretamente para convencer os responsáveis do Mónaco a manterem a aposta no internacional português.
“Toda a gente rejeitava a ideia e, quando foi para o Mónaco, o clube não queria ficar com ele depois do primeiro ano. Tive de convencer o presidente”, contou.
A revelação mostra que Bernardo Silva enfrentou dúvidas mesmo depois de conseguir dar o salto para o futebol francês.
O jogador precisava de um clube que valorizasse as suas características e lhe permitisse desenvolver um futebol assente na qualidade técnica e na capacidade de interpretar os diferentes momentos do jogo.
Jorge Mendes acredita que essa questão foi determinante para o sucesso posterior do internacional português.
Manchester City foi o clube ideal para Bernardo Silva
O empresário destacou ainda a importância de encontrar o contexto desportivo certo para cada futebolista.
No caso de Bernardo Silva, Jorge Mendes considera que a mudança para o Manchester City acabou por ser decisiva.
O estilo de jogo da equipa inglesa, assente na posse de bola, na circulação e na inteligência posicional, revelou-se particularmente adequado às características do português.
“Era um jogador que vivia da posse de bola, não era aquele tipo de futebolista que anda a correr por todo o lado. Foi também por isso que se transferiu para o Manchester City, que era a equipa certa para ele”, explicou.
Com o passar dos anos, Bernardo Silva acabou por contrariar todas as previsões negativas que marcaram o início da carreira.
Jorge Mendes não tem dúvidas quanto ao estatuto que o jogador conseguiu alcançar.
“Depois disso, tornou-se evidente que estávamos perante um dos melhores jogadores da história do futebol português.”
Uma avaliação que contrasta profundamente com os comentários que o empresário ouviu quando ainda tentava convencer os clubes a apostar no médio.
João Félix chegou ao Benfica quase por favor à família
Se a história de Bernardo Silva surpreendeu, a revelação sobre João Félix foi igualmente inesperada.
Jorge Mendes contou que a chegada do avançado ao Benfica aconteceu em circunstâncias muito particulares e que, na altura, o jogador não era necessariamente visto como uma grande promessa.
O empresário começou por explicar que muitos dos futebolistas que ajudou a transferir ao longo da carreira não eram considerados os principais talentos dos respetivos clubes.
“João Félix, por exemplo, quando estava no FC Porto, era um jogador… A maioria dos jogadores cujas transferências acompanhei nos últimos anos, e quando digo a maioria é mesmo literalmente, talvez mais de 80%, não eram os jogadores de maior destaque nos seus clubes. E João Félix é um exemplo disso”, afirmou.
Depois, Jorge Mendes explicou como surgiu a oportunidade de João Félix trocar o FC Porto pelo Benfica.
Segundo o empresário, os encarnados demonstraram inicialmente interesse no irmão do jogador, que acabou por ser contratado.
A situação criou uma preocupação familiar, uma vez que os dois irmãos ficariam em clubes diferentes.
“Ele estava no FC Porto e, ao mesmo tempo, o Benfica mostrou interesse no irmão e contratou-o. O pai ficou naturalmente preocupado, porque o João estava no Porto enquanto o irmão ia para o Benfica”, recordou.
Foi então que surgiu a decisão que acabaria por mudar a carreira de João Félix.
“E, por isso, o clube contratou o João Félix quase como um favor.”
A revelação de Jorge Mendes demonstra que a contratação do avançado não terá resultado apenas de uma aposta direta no seu potencial futebolístico, mas também das circunstâncias familiares que envolveram a mudança do irmão para a Luz.
De contratação quase por favor a uma das grandes figuras do Benfica
A história ganha particular significado quando se recorda aquilo que João Félix viria a alcançar depois de ingressar na formação do Benfica.
O avançado conseguiu afirmar-se no clube da Luz e acabou por se tornar uma das grandes revelações do futebol português.
As suas exibições despertaram a atenção internacional e abriram-lhe as portas de alguns dos principais campeonatos europeus.
Atualmente ao serviço do Al-Nassr, João Félix construiu uma carreira que contrasta com as circunstâncias descritas por Jorge Mendes relativamente à sua chegada ao Benfica.
O empresário utilizou precisamente este exemplo para demonstrar que a avaliação dos jovens talentos está longe de ser uma ciência exata.
Um jogador que inicialmente não é considerado uma das maiores promessas de um clube pode acabar por atingir um nível muito superior ao de outros futebolistas que, na mesma idade, parecem reunir melhores condições para triunfar.
Para Jorge Mendes, o caso de João Félix demonstra que as oportunidades e o contexto de desenvolvimento podem ser tão importantes como o talento individual.
Jorge Mendes elogia o Barcelona pela aposta na formação
Durante a intervenção, o empresário português abordou também a importância dos clubes na transição dos jovens jogadores para o futebol profissional.
Nesse contexto, destacou o trabalho desenvolvido pelo Barcelona, que considera um exemplo positivo na integração de talentos provenientes da formação.
Jorge Mendes elogiou a capacidade do clube catalão para proporcionar oportunidades a jovens futebolistas e permitir que se afirmem na equipa principal.
“O clube integra todos os anos um, dois ou três jogadores da equipa de formação. E quando falamos do Barcelona, estamos a falar de um dos melhores clubes do mundo”, afirmou.
O empresário destacou ainda a presença de vários jogadores formados no clube no atual plantel principal.
“Podemos olhar para os jogadores que atualmente fazem parte da equipa principal e perceber que muitos deles saíram da formação do próprio clube.”
Para Jorge Mendes, esta capacidade de criar oportunidades representa uma das principais diferenças entre clubes que conseguem aproveitar o talento existente nas suas academias e outros que acabam por desperdiçá-lo.
“Há muito talento que está a ser desperdiçado”
Na parte final da intervenção, Jorge Mendes deixou um alerta sobre o funcionamento do futebol e a forma como os clubes avaliam os jogadores.
O empresário considera que existem muitos futebolistas com qualidade suficiente para alcançar patamares superiores, mas que acabam por nunca receber uma verdadeira oportunidade.
Na sua perspetiva, o talento não está concentrado exclusivamente nas principais equipas ou nos campeonatos mais competitivos.
“Há muito talento que está a ser desperdiçado, porque o talento já existe. Podemos encontrar jogadores muito talentosos na terceira divisão, tal como podemos encontrar jogadores muito talentosos na segunda divisão“, afirmou.
O problema, segundo Jorge Mendes, está muitas vezes na ausência de pessoas ou clubes dispostos a acreditar nesses futebolistas.
“O problema é que, muitas vezes, não encontram ninguém que lhes dê uma oportunidade.”
As histórias de Bernardo Silva e João Félix serviram precisamente para ilustrar essa realidade.
Bernardo Silva chegou a ser considerado um jogador sem condições para ultrapassar o nível de clubes como o Paços de Ferreira e viu a sua continuidade no Mónaco ser questionada.
João Félix, por sua vez, terá chegado ao Benfica numa operação influenciada pela contratação do irmão e pela preocupação do pai em manter os filhos próximos.
Ambos acabaram por construir carreiras internacionais de destaque, contrariando as avaliações que marcaram os primeiros anos dos respetivos percursos.
As revelações de Jorge Mendes deixam uma mensagem clara: no futebol, nem sempre os jovens considerados mais promissores são aqueles que chegam mais longe, e uma oportunidade no momento certo pode mudar completamente uma carreira.


