A polémica em torno da alegada “Bola de Ouro de todos os tempos” conquistada por Cristiano Ronaldo acaba de ganhar novos contornos. A Federação Portuguesa de Futebol celebrou a distinção como um feito histórico do capitão da Seleção Nacional, mas os detalhes do processo de votação levantam sérias dúvidas sobre o seu verdadeiro significado. Cada voto custava um euro, era possível votar repetidamente e a organização nunca revelou o número total de votos. Houve mesmo participantes que votaram 26 vezes.
Um euro por voto e sem qualquer limite
A iniciativa “B.O.A.T.” (“Ballon d’Or of All Time”), promovida na plataforma oficial da Bola de Ouro, convidava os adeptos a escolher a melhor temporada de sempre entre os vencedores do prestigiado galardão.
Contudo, ao contrário do que poderia parecer, não se tratava de uma eleição tradicional, com um voto por pessoa.
Para participar, os adeptos tinham de criar uma conta e pagar um euro por cada voto. E não existia qualquer limite ao número de participações.
Quem quisesse podia votar uma, cinco, dez ou vinte vezes, desde que estivesse disposto a pagar por cada participação adicional.
Em contrapartida, os participantes podiam descarregar uma fotografia histórica relacionada com a Bola de Ouro e habilitar-se a um sorteio de dois bilhetes para a gala de 2027.
O sistema permitia, assim, que um mesmo adepto tivesse um peso superior no resultado final, simplesmente por gastar mais dinheiro.
Houve quem pagasse 26 euros para votar
Os dados divulgados pela organização, citados pela imprensa internacional, mostram que milhares de participantes aproveitaram a possibilidade de votar repetidamente.
- 44 pessoas votaram entre 10 e 26 vezes.
- 300 pessoas votaram entre 5 e 9 vezes.
- 4.665 pessoas votaram entre 2 e 4 vezes.
No total, 5.009 participantes terão votado mais do que uma vez.
O caso mais extremo referido nos dados divulgados corresponde a 26 participações, o equivalente a 26 euros gastos numa única votação.
Estes números não demonstram, por si só, que o resultado tenha sido manipulado, mas confirmam que a votação não seguiu o princípio de uma pessoa, um voto.
Ronaldo venceu com 75%, mas ninguém sabe quantos votos foram contabilizados
Cristiano Ronaldo acabou por vencer a iniciativa com uma vantagem esmagadora.
A temporada 2007/08, em que brilhou ao serviço do Manchester United e conquistou a primeira Bola de Ouro da carreira, recebeu 75% dos votos.
Em segundo lugar ficou Lionel Messi, com a temporada de 2012, que reuniu apenas 9%. A época de 2017 do próprio Ronaldo surgiu na terceira posição, com 6%.
Mas existe um pormenor que impede uma avaliação completa dos resultados.
A organização não divulgou o número total de votos contabilizados.
Sem essa informação, não é possível determinar quantos votos foram efetivamente registados, qual a proporção representada pelas participações repetidas ou quanto dinheiro foi arrecadado através da iniciativa.
Também não é possível concluir que os votos pagos tenham alterado o vencedor. O que se sabe é que o sistema permitia a participação repetida mediante pagamento.
France Football esclarece que não existe qualquer prémio oficial
Outro elemento importante é a natureza da própria distinção.
Segundo informações divulgadas pela imprensa argentina, a France Football descreveu a iniciativa como uma homenagem simbólica.
A Bola também já tinha esclarecido que não existe qualquer troféu físico associado à votação, não haverá uma distinção na gala e o palmarés oficial da Bola de Ouro permanece inalterado.
Ou seja, Cristiano Ronaldo não conquistou uma sexta Bola de Ouro.
O português venceu uma consulta popular sobre temporadas históricas, numa plataforma que permitia comprar votos adicionais.
A diferença entre as duas situações é fundamental para compreender a polémica que se seguiu.
FPF celebrou a votação como se fosse uma conquista histórica
Apesar da natureza simbólica da iniciativa, a Federação Portuguesa de Futebol não poupou nos elogios ao capitão da Seleção Nacional.
Na sua conta oficial na rede social X, publicou uma imagem de Cristiano Ronaldo acompanhada da mensagem:
“De 2008 para a eternidade. A Bola de Ouro de todos os tempos é portuguesa. Parabéns, Capitão!”
A publicação, acompanhada de uma coroa, apresentava o resultado como um reconhecimento histórico do internacional português.
Contudo, a mensagem não esclarecia que a votação era paga, que os participantes podiam votar repetidamente ou que não existia qualquer troféu oficial.
É precisamente esta diferença entre a dimensão da celebração institucional e a natureza real da iniciativa que está no centro das críticas.
Homenagem surge depois de castigo disciplinar a Ronaldo
A publicação da FPF ganha ainda maior relevância devido ao momento que Cristiano Ronaldo atravessa na Seleção Nacional.
Há menos de um mês, o capitão abandonou o estágio da equipa portuguesa na véspera de um compromisso oficial, depois de um desentendimento com o selecionador Jorge Jesus.
O episódio levou a Federação a instaurar um processo disciplinar, que terminou com uma suspensão de 30 dias.
Apesar de Ronaldo ainda não ter regressado à Seleção, a mesma Federação decidiu celebrar publicamente o resultado da votação online.
Para os críticos, a homenagem levanta questões sobre a coerência da postura institucional da FPF, que recentemente sancionou o jogador e agora o apresenta como protagonista de uma conquista histórica.
Felicitar Ronaldo pela preferência dos adeptos não é, por si só, contraditório com a aplicação de um castigo disciplinar. A discussão prende-se sobretudo com a forma como a votação foi comunicada.
Uma “Bola de Ouro” que afinal não acrescenta nada ao palmarés
Cristiano Ronaldo continua a ser um dos futebolistas mais premiados da história, com cinco Bolas de Ouro oficiais e uma carreira marcada por conquistas individuais e coletivas.
A extraordinária temporada de 2007/08, ao serviço do Manchester United, merece naturalmente reconhecimento pelo impacto que teve no futebol europeu.
Mas a iniciativa “B.O.A.T.” não representa uma nova distinção oficial.
Foi uma votação popular em que cada participação custava um euro, os votos podiam ser repetidos e o número total de votos não foi tornado público.
São esses detalhes que tornam a celebração da Federação Portuguesa de Futebol particularmente controversa.
Ronaldo venceu a consulta com 75% dos votos. A FPF festejou o resultado com referências à eternidade e à Bola de Ouro de todos os tempos.
O que ficou por explicar aos adeptos é que essa suposta distinção histórica não tinha troféu, não alterava qualquer palmarés e permitia que quem pagasse mais pudesse votar mais vezes.


