Foi uma das polémicas mais mediáticas da carreira de José Mourinho e terminou com a saída de uma médica do Chelsea, um processo judicial e um acordo milionário. Onze anos depois, Eva Carneiro seguiu um caminho surpreendente, voltou a envolver-se no futebol de uma forma completamente diferente e viu o antigo treinador português revisitar o episódio num documentário da Netflix.
O confronto aconteceu em agosto de 2015, durante um encontro entre Chelsea e Swansea, mas as consequências prolongaram-se muito para além dos 90 minutos.
Agora, aos 52 anos, Eva Carneiro construiu uma carreira fora dos grandes clubes e tornou-se também investidora num projeto futebolístico com uma forte componente social.
O episódio que desencadeou a polémica entre Mourinho e Eva Carneiro
Tudo começou na jornada inaugural da Premier League de 2015/16, quando o Chelsea empatou 2-2 com o Swansea, em Stamford Bridge.
Já nos descontos, Eden Hazard caiu no relvado e a equipa médica dos londrinos, incluindo Eva Carneiro e Jon Fearn, entrou em campo para prestar assistência ao internacional belga.
A intervenção obrigou Hazard a sair temporariamente do terreno de jogo, deixando o Chelsea em inferioridade numérica numa fase decisiva da partida.
José Mourinho reagiu com enorme irritação e criticou publicamente os elementos do departamento médico.
“Não fiquei satisfeito com a minha equipa médica porque, mesmo sendo médico ou secretário no banco, é preciso compreender o jogo. Era necessário perceber que já tínhamos menos um jogador.”
O treinador português explicou que considerava desnecessária a entrada dos médicos, por entender que Hazard não apresentava uma lesão grave.
“Tinha a certeza de que o Eden não tinha um problema grave. Tinha levado uma pancada e estava muito, muito cansado. O meu departamento médico foi ingénuo. Deixou-me perante um contra-ataque com menos dois jogadores.”
As declarações desencadearam uma enorme controvérsia em Inglaterra e colocaram Eva Carneiro no centro das atenções mediáticas.
Da polémica à saída do Chelsea e a um acordo milionário
Depois do incidente, Eva Carneiro deixou de integrar o banco de suplentes do Chelsea e foi afastada das atividades habituais junto da equipa principal.
Cerca de seis semanas depois, abandonou o clube.
A médica avançou com uma ação judicial relacionada com a cessação do vínculo laboral, num processo que envolveu também José Mourinho.
Segundo a imprensa britânica, Carneiro rejeitou inicialmente uma proposta de acordo no valor de 1,2 milhões de libras.
O litígio acabaria por ser resolvido fora dos tribunais, através de um acordo confidencial que terá atingido cerca de cinco milhões de libras, de acordo com estimativas publicadas na altura.
O valor exato não foi oficialmente divulgado, pelo que a quantia referida deve ser entendida como uma estimativa da imprensa e não como um montante confirmado.
O episódio marcou profundamente a carreira da médica e levou-a a afastar-se do futebol profissional durante algum tempo.
Eva Carneiro confessa que a polémica mudou a sua vida
Numa entrevista concedida à talkSPORT, Eva Carneiro admitiu que a experiência teve consequências pessoais e profissionais difíceis de ultrapassar.
“É impossível passar por algo como aquilo por que passei durante grande parte de um ano da minha vida e não ficar mudada por isso.”
A antiga médica do Chelsea explicou que precisou de recuperar o prazer de exercer medicina, longe da exposição pública.
“Precisava de algum tempo afastada, precisava de voltar a gostar do meu trabalho e de voltar a ser médica sem as complicações de estar constantemente sob os holofotes.”
Carneiro revelou ainda que chegou a perder o interesse pelo futebol, ao ponto de não querer sequer assistir à final da Liga dos Campeões desse ano.
Também criticou a forma como determinados elementos do futebol encararam a sua intervenção médica.
“Algumas pessoas no futebol quiseram tratar-me como se tivesse feito alguma coisa errada, quando era evidente que estava apenas a cumprir o meu trabalho.”
Para a médica, o futebol precisava de uma mudança cultural em matérias como o respeito pelos profissionais de saúde, a proteção dos atletas e o combate à discriminação.
A nova vida de Eva Carneiro longe dos grandes clubes
Depois de abandonar o Chelsea, Eva Carneiro continuou a exercer medicina, mas num contexto bastante diferente daquele a que estava habituada.
A profissional nascida em Gibraltar passou a trabalhar na área da medicina privada, incluindo uma colaboração com o Sports Medical Group, localizado em Harley Street, uma das zonas de Londres mais associadas à medicina especializada.
Também desenvolveu atividade como consultora privada e colaborou com o Aspetar Orthopaedic and Sports Medicine Hospital, no Qatar, durante os preparativos para o Mundial de 2022.
Apesar de ter deixado o futebol de elite, Carneiro não abandonou a medicina desportiva e conseguiu reconstruir a carreira longe da exposição mediática que acompanhou o conflito com Mourinho.
Mas a história não termina aqui.
O regresso surpreendente ao futebol: tornou-se investidora de um clube inglês
Em 2021, Eva Carneiro decidiu voltar a envolver-se diretamente no futebol, desta vez como investidora.
A antiga médica do Chelsea associou-se ao Lewes FC, um clube inglês conhecido pelas iniciativas de promoção da igualdade e combate à discriminação.
Um dos projetos que despertou o seu interesse foi a campanha “#CallHimOut”, criada para combater o sexismo, a misoginia e a violência contra as mulheres.
A iniciativa incentivava também os jogadores da equipa masculina a denunciarem comportamentos e expressões misóginas no contexto do futebol.
O Lewes já tinha feito história em 2017 ao anunciar orçamentos iguais para as suas equipas masculina e feminina, uma decisão pioneira no futebol inglês.
Carneiro não foi a única personalidade conhecida a investir no projeto.
O tenista Andy Murray e a sua mãe, Judy Murray, também se associaram ao clube.
Judy explicou que ficou impressionada com os valores defendidos pelo Lewes e com as pessoas envolvidas na organização.
O investimento contribuiu para melhorar as infraestruturas e apoiar o desenvolvimento do clube, particularmente do futebol feminino.
Na temporada 2024/25, a equipa feminina terminou no sexto lugar da Women’s National League South, mantendo a ambição de continuar a crescer no panorama inglês.
Onze anos depois, Mourinho volta a falar do caso e mantém a sua versão
O episódio regressou à atualidade em 2026, quando José Mourinho abordou a polémica na série documental de três episódios “MOURINHO”, da Netflix.
O treinador português, que regressou ao Real Madrid no verão de 2026, voltou a explicar a forma como interpretou os acontecimentos de Stamford Bridge.
“Para mim, uma médica é igual a um médico. Por isso, como sempre, utilizo o meu vocabulário quando não estou satisfeito.”
Mourinho reconheceu que, em momentos de elevada tensão, podem surgir palavras mais duras, mas sugeriu que, normalmente, as pessoas habituadas ao ambiente do futebol ultrapassam rapidamente essas situações.
“Há palavras em momentos em que a tensão é muito, muito elevada. Normalmente, as pessoas com cultura futebolística, com ADN futebolístico e experiência no futebol ultrapassam isso num segundo. Naquele caso, foi diferente.”
O treinador reiterou ainda que considerava desnecessária a assistência médica a Eden Hazard naquele momento.
“Não sou médico, mas os meus olhos sabem quando um jogador está lesionado e quando não está. Sabia que ele não estava lesionado, mas os médicos entraram em campo e, naquele momento, ficámos com nove jogadores.”
As declarações mostram que, onze anos depois, Mourinho continua a defender a interpretação que fez do lance, embora o conflito tenha terminado com consequências profissionais e judiciais significativas.
John Terry revela o que se passava no balneário do Chelsea
O antigo capitão do Chelsea, John Terry, também participou no documentário e explicou a orientação que existia relativamente às entradas da equipa médica em campo.
Segundo Terry, Mourinho pretendia que os médicos apenas interviessem quando existisse uma necessidade evidente de assistência.
“Do ponto de vista médico, ele dizia que, a menos que fosse algo realmente muito grave, os médicos não deveriam entrar. Era esse o entendimento que tínhamos enquanto jogadores, e a equipa médica também estava integrada nessa forma de trabalhar.”
O antigo defesa reconheceu igualmente a dimensão da controvérsia.
“Foi um momento importante, obviamente, e ele recebeu muitas críticas por isso. Houve uma enorme pressão sobre o clube.”
Uma polémica que continua a perseguir Mourinho
Mais de uma década depois, o nome de Eva Carneiro continua a surgir quando são recordados alguns dos episódios mais controversos da carreira do treinador português.
Em fevereiro de 2026, a jornalista britânica Jacqui Oatley voltou a recordar o caso nas redes sociais, na sequência de outras declarações polémicas de Mourinho.
A jornalista criticou duramente o tratamento dado à médica, considerando que a sua carreira nos clubes de futebol foi prejudicada sem justificação válida.
Entretanto, Eva Carneiro encontrou novos caminhos profissionais, continuou ligada à medicina desportiva e regressou ao futebol através de um projeto que procura promover mudanças culturais na modalidade.
Onze anos depois daquela noite em Stamford Bridge, Mourinho continua a ser uma das figuras mais mediáticas do futebol mundial. Eva Carneiro, por seu lado, construiu uma vida muito diferente daquela que tinha no Chelsea, longe dos bancos de suplentes dos grandes clubes, mas sem abandonar a ligação ao desporto.


