O FC Porto decidiu levar uma montagem humorística sobre Diogo Costa até à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). A decisão está a provocar uma questão inevitável: porque é que uma imagem irónica sobre o guarda-redes portista merece uma queixa formal, quando o próprio universo azul e branco já protagonizou provocações semelhantes contra os seus rivais?
O caso começou depois da vitória do FC Porto frente ao Marítimo, por 2-1, no Estádio dos Barreiros, num encontro em que Diogo Costa sofreu um golo aos 16 minutos, apontado por Gábor Szalai.
Na sequência do lance, a LiveModeTV publicou na rede social X uma montagem gerada por inteligência artificial, na qual o guarda-redes aparecia com os braços encolhidos, acompanhada da frase:
“Foi muito no canto.”

A publicação ironizava com a intervenção de Diogo Costa no golo do Marítimo, mas a reação do FC Porto foi muito além de uma simples resposta nas redes sociais.
Segundo o jornal O Jogo, os dragões decidiram apresentar uma queixa à ERC e estão ainda a estudar outras medidas jurídicas, nomeadamente por eventuais violações dos direitos de imagem.
A LiveModeTV acabou por apagar a publicação depois de ter sido noticiada a intenção do clube de avançar com a queixa.
Quando o Porto Canal transformou Frederico Varandas em Calimero
A posição do FC Porto ganha contornos particularmente curiosos quando recordamos um episódio protagonizado pelo Porto Canal.
Na noite de 10 de fevereiro, o canal ligado ao universo portista exibiu uma montagem de Frederico Varandas, presidente do Sporting, caracterizado como Calimero, a conhecida personagem de animação.
A imagem surgiu durante um programa de análise ao momento do FC Porto, no rescaldo do clássico da 21.ª jornada.
Porto Canal trata Varandas como um "Calimero". https://t.co/yt3t9zyW2f
— Cabine Desportiva (@CabineSport) February 10, 2026
O comentador Paulo Miguel Castro assumiu a autoria da montagem, que utilizava a imagem do presidente leonino para o ridicularizar.
O episódio aconteceu, precisamente, num contexto em que Frederico Varandas já tinha sido alvo de uma tarja dos Super Dragões durante o clássico.
Uma figura do futebol português foi caricaturada num canal associado ao FC Porto. Meses depois, uma montagem humorística sobre Diogo Costa leva o clube a recorrer à ERC.
As circunstâncias e o enquadramento jurídico dos dois episódios não são necessariamente iguais. Ainda assim, a comparação levanta uma questão legítima sobre a coerência dos critérios utilizados.
Se a utilização de uma imagem para ridicularizar um protagonista do futebol justifica uma queixa formal, deverá o mesmo princípio aplicar-se quando o alvo é um dirigente adversário?
Benfica também se queixou de provocações no Dragão
Existe outro episódio recente que ajuda a compreender a discussão.
Em setembro, depois da vitória do FC Porto sobre o Benfica por 3-1, na sétima jornada da Liga Portugal, a música “Doidas andam as galinhas” foi reproduzida no sistema de som do Estádio do Dragão.
"Doidas andam as galinhas" – a música que o FC Porto colocou enquanto os benfiquistas esperavam por autorização para sair do estádio do Dragão https://t.co/e7W4qNuG4p
— Cabine Desportiva (@CabineSport) September 21, 2026
A música passou quando ainda se encontravam adeptos benfiquistas nas bancadas, tendo sido interpretada pelos encarnados como uma provocação deliberada.
O Benfica apresentou uma exposição ao Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, defendendo que os acontecimentos justificavam uma intervenção disciplinar e solicitando a interdição do recinto.
Os encarnados também questionaram a legalidade da transmissão, pelo Porto Canal, de imagens do seu banco de suplentes.
Ou seja, o próprio FC Porto já esteve no centro de polémicas envolvendo provocações dirigidas aos seus adversários.
É importante distinguir os casos: uma música reproduzida num estádio, uma caricatura televisiva e uma montagem publicada nas redes sociais podem ter enquadramentos regulamentares e legais diferentes.
Mas existe um elemento comum: a utilização do humor, da sátira ou da provocação para atingir figuras ou instituições rivais.
O humor só tem limites quando o alvo é o FC Porto?
A decisão dos dragões coloca em discussão aquilo que muitos adeptos poderão interpretar como uma situação de dois pesos e duas medidas.
Quando Frederico Varandas apareceu caracterizado como Calimero no Porto Canal, tratou-se de uma caricatura dirigida ao presidente de um clube rival.
Quando a música “Doidas andam as galinhas” passou no Dragão, o episódio foi entendido pelo Benfica como uma provocação aos seus adeptos.
Agora, quando Diogo Costa é alvo de uma montagem humorística da LiveModeTV, o FC Porto considera que existem fundamentos para apresentar uma queixa ao regulador.
A questão não é saber se o clube tem direito a defender o seu jogador. Naturalmente que tem. A questão é perceber se demonstra a mesma preocupação quando a sátira parte de meios ligados ao próprio FC Porto.
Até ao momento, não são conhecidos elementos que permitam concluir que os diferentes episódios constituam infrações equivalentes, nem que a ERC venha a dar razão aos portistas.
Também não existe informação de que o FC Porto tenha apresentado uma queixa contra o Porto Canal pela montagem de Frederico Varandas.
Entre a liberdade de expressão e os direitos de imagem
O futebol português sempre viveu de rivalidades intensas, provocações, caricaturas e momentos de humor que rapidamente se tornam virais.
Isso não significa que todas as publicações sejam automaticamente legítimas. A liberdade de expressão e a sátira coexistem com direitos de personalidade e de imagem, cuja proteção depende das circunstâncias concretas.
Contudo, defender limites para o humor exige também alguma consistência na forma como esses limites são aplicados.
O FC Porto pode entender que a LiveModeTV ultrapassou uma linha ao utilizar a imagem de Diogo Costa. Mas essa posição torna inevitável a comparação com episódios em que figuras de clubes rivais foram alvo de provocações no universo portista.
O clube terá agora de aguardar pela apreciação da queixa, enquanto avalia eventuais ações judiciais adicionais.
Até lá, permanece uma pergunta incómoda: a montagem de Frederico Varandas como Calimero era apenas humor, mas a imagem de Diogo Costa com a frase “Foi muito no canto” já é um assunto para a ERC?
Este artigo inclui análise e comentário editorial sobre episódios noticiados pela imprensa desportiva. A apresentação de uma queixa não demonstra, por si só, a existência de qualquer infração.


