O Sporting entrou inesperadamente no debate político na Assembleia da República. Durante uma intervenção no plenário, esta sexta-feira, o primeiro-ministro Luís Montenegro recorreu a uma metáfora futebolística para responder às críticas sobre as contas públicas. Sem mencionar diretamente o nome do clube de Alvalade, o chefe do Governo evocou a célebre expressão “Para o ano é que vai ser”, historicamente associada aos adeptos leoninos.
A referência surgiu durante a discussão em torno da proposta de Orçamento do Estado para 2027, quando Montenegro procurava contrariar as previsões negativas sobre a evolução das finanças públicas portuguesas.
O primeiro-ministro começou por recordar uma situação do passado desportivo português, deixando no ar uma alusão que dificilmente terá passado despercebida aos adeptos de futebol.
"Pro ano é que vai ser!"
O primeiro-ministro Luís Montenegro fez uma referência desportiva em pleno debate quinzenal… pic.twitter.com/o3WCPWlMZ2
— B24 (@B24PT) October 9, 2026
“Uma determinada coletividade não atingia os seus objetivos…”
Luís Montenegro introduziu a comparação com algum cuidado, afirmando que não pretendia transformar o desporto na metáfora habitual do debate político.
Contudo, acabou por recuperar uma expressão que, durante muitos anos, foi utilizada para brincar com os sucessivos adiamentos das conquistas do Sporting.
“E agora, àquela boa maneira que há alguns anos uma determinada entidade desportiva – não quero aqui introduzir o desporto como, digamos, a metáfora mais habitual -, mas lembram-se de, há alguns anos, quando uma determinada coletividade não atingia os seus objetivos, dizia sempre que para o ano é que vai ser.”
Embora não tenha identificado o clube, a referência à expressão “Para o ano é que vai ser” remete para uma das provocações mais conhecidas do futebol português, frequentemente dirigida ao Sporting durante os longos períodos sem conquistar o campeonato nacional.
O primeiro-ministro prosseguiu a comparação, lembrando que os objetivos acabaram por ser alcançados, embora depois de uma longa espera.
“E pronto, as coisas foram correndo, e passado muito tempo lá aconteceu, mas foi muito tempo. Já aconteceu com outros.”
Foi esta recordação futebolística que serviu de ponto de partida para a crítica política que Montenegro pretendia fazer.
Montenegro utiliza o Sporting para responder às críticas ao Governo
Depois da referência desportiva, Luís Montenegro explicou o paralelismo que pretendia estabelecer.
Na perspetiva do primeiro-ministro, os críticos da política orçamental do Governo estarão constantemente a adiar as previsões de dificuldades nas contas públicas.
Tal como acontecia com a expressão futebolística, o chefe do Executivo sugeriu que os problemas anunciados vão sendo sucessivamente projetados para o ano seguinte.
“Ora, aqueles que andam a antecipar défice, problemas, etc., agora é sempre: ‘Para o ano é que vai ser’.”
Montenegro continuou, enumerando os anos em que, segundo a sua leitura, essas previsões não se terão concretizado.
“Não foi em 2025, vai ser em 2026, não foi em 2026, vai ser em 2027, já não é no saldo orçamental, agora é na despesa permanente que está descontrolada…”
O primeiro-ministro terminou esta parte da intervenção com uma rejeição categórica das críticas.
“Não, não está descontrolada.”
A comparação teve, assim, um objetivo político concreto: acusar os críticos do Governo de anteciparem repetidamente problemas orçamentais que, na avaliação de Montenegro, não se têm confirmado.
Uma expressão que marcou décadas de futebol português
A frase “Para o ano é que vai ser” tornou-se particularmente conhecida no futebol nacional devido ao longo período em que o Sporting esteve afastado da conquista do campeonato.
Depois do título de 2001/02, os leões passaram 19 anos sem voltar a sagrar-se campeões nacionais.
Durante esse intervalo, a expressão foi frequentemente utilizada por adeptos rivais para provocar os sportinguistas, fazendo referência à esperança renovada de conquistar o campeonato na temporada seguinte.
O ciclo terminou em 2020/21, quando o Sporting, orientado por Rúben Amorim, voltou a conquistar o título nacional.
Foi precisamente esse passado de sucessivas expectativas e longos anos de espera que Montenegro pareceu recuperar na sua intervenção parlamentar.
O primeiro-ministro, porém, não identificou expressamente o Sporting e acrescentou que situações semelhantes já tinham acontecido com outros clubes.
Uma provocação futebolística em pleno debate do Orçamento
A utilização de referências desportivas não é inédita no discurso político português, mas a escolha de uma expressão tão associada à rivalidade futebolística deu um tom inesperado à intervenção.
O debate em torno do Orçamento do Estado para 2027 centra-se em matérias como a evolução da despesa pública, o saldo orçamental e a sustentabilidade das contas do Estado.
Montenegro optou por recorrer ao futebol para simplificar a crítica que pretendia fazer às previsões negativas sobre a gestão financeira do Governo.
Em vez de se limitar a contestar os argumentos dos seus críticos com indicadores económicos, utilizou uma expressão popular que qualquer adepto português reconhece.
A comparação, contudo, não constitui por si só uma demonstração de que todas as previsões económicas contestadas pelo primeiro-ministro estejam erradas. Essa avaliação depende dos dados orçamentais e da evolução efetiva das contas públicas.
Sporting não foi mencionado, mas a indireta foi evidente
Um dos aspetos mais curiosos da intervenção foi a forma como Luís Montenegro evitou dizer o nome do clube.
O primeiro-ministro referiu-se apenas a uma “determinada entidade desportiva” e a uma “determinada coletividade”, deixando a identificação entregue à interpretação de quem o ouvia.
Mas a combinação entre a expressão “Para o ano é que vai ser” e a referência a uma conquista alcançada depois de muito tempo aponta claramente para a conhecida associação ao Sporting.
O clube de Alvalade acabou, assim, por ser protagonista involuntário de uma intervenção parlamentar sobre o Orçamento do Estado.
Sem que estivesse em discussão qualquer matéria relacionada com futebol, Montenegro recuperou uma das expressões mais emblemáticas das rivalidades desportivas portuguesas para atacar politicamente os seus críticos.
Do futebol às contas públicas: a frase que marcou a intervenção
A comparação de Luís Montenegro procurou transmitir uma mensagem simples: na sua perspetiva, quem antecipa problemas nas contas públicas continua a transferir essas previsões para o futuro.
Para ilustrar essa ideia, o primeiro-ministro foi buscar uma expressão que durante anos acompanhou os adeptos do Sporting e que acabou por ganhar um significado muito próprio no futebol português.
A referência não teve qualquer relação direta com a atualidade desportiva dos leões, mas serviu como instrumento de crítica política durante o debate orçamental.
E, apesar de o nome do Sporting nunca ter sido pronunciado, a frase escolhida por Montenegro dificilmente poderia ser mais reconhecível:
“Quando uma determinada coletividade não atingia os seus objetivos, dizia sempre que para o ano é que vai ser.”
Uma alusão inesperada que levou uma velha provocação do futebol português até ao plenário da Assembleia da República.


