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    Chega de Ronaldo: abandonou Portugal e a Seleção deve agora fechar-lhe a porta de vez

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    By Rogério Maia on 7 de Outubro, 2026 Artigo de Opinião
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    Há jogadores que se despedem da Seleção debaixo de uma ovação. Outros fazem-no com lágrimas no relvado. Cristiano Ronaldo corre o risco de se despedir com reuniões, testemunhas, acusações de quebra de palavra e um documento de oito pontos sobre aquilo que o selecionador deveria dizer publicamente. Depois de abandonar os companheiros em pleno estágio, chegou o momento de a Federação Portuguesa de Futebol tomar a decisão que o próprio capitão parece incapaz de tomar: acabou.

    Não está em causa apagar Cristiano Ronaldo da história. Isso seria tão absurdo como impossível.

    Estamos a falar do maior marcador da história da Seleção, de um jogador com 234 internacionalizações e 146 golos, campeão europeu em 2016 e vencedor de duas Ligas das Nações.

    Portugal deve-lhe muito.

    Mas dever gratidão a Ronaldo não significa dever-lhe a Seleção para sempre.

    O comunicado que devia ser um pedido de desculpa transformou-se num processo de acusação

    O longo comunicado publicado por Ronaldo poderia ter sido muito simples.

    “Errei. Sou capitão. Não devia ter abandonado os meus companheiros. Peço desculpa.”

    Mas Cristiano precisou de explicar reuniões, conversas privadas, testemunhas, planos de utilização, promessas alegadamente quebradas e até reproduzir os oito pontos de um documento que tinha validado antes da conferência de imprensa de Jorge Jesus.

    O problema começou porque Ronaldo aqueceu diante da Noruega e não entrou.

    Segundo o próprio, Jorge Jesus tinha-lhe dito que poderia utilizá-lo durante cerca de 30 minutos. Acabou por mudar de ideias.

    É legítimo Ronaldo sentir-se desiludido. O que não é aceitável é transformar uma decisão de um treinador num problema de Estado dentro da Seleção.

    Treinadores mudam de ideias durante jogos. Fazem substituições que não estavam previstas. Mandam jogadores aquecer que depois não entram.

    Acontece todas as semanas no futebol.

    Quando acontece a Cristiano Ronaldo, aparentemente é necessária uma reunião.

    O capitão que participou na validação da mensagem pública do selecionador

    E é aqui que aparece provavelmente a parte mais desconfortável de todo o comunicado.

    Depois do episódio na Noruega, Ronaldo reuniu-se com Jorge Jesus e Simão Coutinho.

    Segundo a versão apresentada pelo próprio capitão, existiu posteriormente uma videoconferência envolvendo Jesus, Simão Coutinho e Tiago Craveiro. Dessa sequência surgiu um documento com oito pontos que Ronaldo diz ter validado e que foi entregue ao selecionador.

    Entre esses pontos estavam mensagens extremamente favoráveis ao jogador.

    Jesus deveria reconhecer que Ronaldo tinha sido “exemplar, leal e profissional”.

    Deveria dizer que queria Cristiano “não pouco, mas muito”.

    E deveria reconhecer que tinha errado ao colocar “alguém da dimensão de Pelé ou Maradona” a aquecer para depois não o utilizar.

    É verdade que Ronaldo faz questão de esclarecer uma coisa importante: nenhum desses oito pontos exigia formalmente um pedido de desculpas.

    Mas isso não elimina a pergunta essencial.

    Desde quando é normal um jogador participar na validação de um documento destinado a orientar aquilo que o selecionador deve dizer publicamente sobre uma polémica que envolve esse mesmo jogador?

    Ronaldo garante que nunca interferiu numa decisão técnica ou tática. Não existe razão para afirmar o contrário com base naquilo que tornou público.

    Mas tentar condicionar a forma como o treinador explica publicamente um conflito já entra num território que deveria deixar qualquer Federação desconfortável.

    Jorge Jesus fez aquilo que um selecionador tem de poder fazer

    Depois chegou a conferência de imprensa.

    Jorge Jesus não apresentou a versão que Ronaldo esperava ouvir.

    Assumiu a autoridade do cargo e deixou claro que é o selecionador quem decide quem joga, quem fica no banco e quando são feitas as substituições.

    Ronaldo ouviu aquilo como uma nova quebra de palavra.

    E decidiu sair.

    Não foi dispensado.

    Não terminou a carreira internacional.

    Abandonou o estágio da Seleção enquanto os seus companheiros ainda tinham um jogo para disputar.

    O próprio Ronaldo reconhece agora que não deveria tê-lo feito.

    É uma admissão importante. Mas uma admissão não apaga o ato.

    Ser capitão deveria tornar tudo isto mais grave, não menos

    Há um detalhe fundamental que muitas vezes desaparece no meio do estatuto de Cristiano Ronaldo.

    Ele não era apenas mais um jogador insatisfeito.

    Era o capitão.

    O homem que deveria permanecer ao lado dos companheiros precisamente quando está frustrado.

    O exemplo para quem joga e para quem fica no banco.

    O primeiro a demonstrar que a camisola está acima do indivíduo.

    Ronaldo fez o contrário.

    Primeiro, depois do encontro com a Noruega, não agradeceu aos adeptos. Já reconheceu que errou e pediu desculpa.

    Depois, abandonou o estágio. Também reconheceu que errou e pediu desculpa aos companheiros.

    Há mérito em assumir responsabilidade.

    Mas pedir desculpa depois não pode significar que tudo aquilo que aconteceu deixa de ter consequências.

    O padrão já é demasiado familiar

    Também é impossível analisar este episódio sem recordar outros momentos da fase final da carreira de Ronaldo.

    No Manchester United, a relação com Erik ten Hag terminou numa guerra pública.

    Ronaldo recusou entrar diante do Tottenham, abandonou Old Trafford antes do final da partida e, semanas depois, deu uma entrevista explosiva na qual afirmou sentir-se “traído” pelo clube.

    Agora, anos depois, aparece novamente uma palavra semelhante no centro de um conflito: quebra de confiança.

    As circunstâncias são diferentes. Os treinadores são diferentes. Os clubes e contextos também.

    Mas existe uma semelhança difícil de ignorar: quando o estatuto desportivo de Ronaldo começa a ser questionado, o conflito rapidamente deixa de ser apenas futebolístico.

    Portugal está a provar que consegue continuar sem ele

    Talvez esta seja a parte mais difícil de aceitar para quem passou mais de duas décadas a ser indispensável.

    Portugal continua.

    Jorge Jesus começou a sua passagem pela Seleção a ganhar e o grupo respondeu dentro de campo mesmo depois da saída do capitão.

    Isso não significa que Ronaldo já não possa marcar golos.

    Não significa sequer que seja incapaz de ajudar Portugal.

    Significa algo muito mais simples:

    Portugal já não pode organizar o funcionamento da Seleção em função da felicidade de Cristiano Ronaldo.

    Se joga, joga porque o selecionador considera que é a melhor opção.

    Se fica no banco, fica no banco.

    Se aquece e não entra, aceita.

    É exatamente aquilo que se exige aos outros.

    Não se pode premiar um abandono com uma festa

    Entretanto, começou a falar-se numa futura despedida de Ronaldo da Seleção.

    Um estádio cheio. Uma última partida. Uma enorme homenagem ao jogador que marcou uma era.

    Há poucas semanas, seria difícil contestar que Cristiano merecia esse momento.

    Depois do que aconteceu, a discussão mudou.

    Que mensagem passaria a FPF se um capitão pudesse abandonar os companheiros durante um estágio e, pouco tempo depois, regressasse para uma celebração preparada à sua medida?

    Que existem regras para todos e regras para Cristiano Ronaldo?

    Curiosamente, foi o próprio jogador quem ofereceu a resposta no comunicado.

    Ronaldo pediu que a Federação avaliasse o seu comportamento e afirmou que qualquer castigo deveria ser aplicado sem atenuantes.

    Mais: reconheceu que ser capitão deve funcionar como agravante.

    Nisso tem razão.

    O castigo não deve ser uma suspensão com regresso anunciado

    Há, no entanto, uma parte do comunicado que mostra que Ronaldo continua a imaginar um futuro na Seleção.

    Ele não determinou o castigo que receberá. Essa decisão pertence à FPF.

    Mas deixou claro que, depois de cumprir a eventual suspensão, se estiver fisicamente apto, jogar e marcar pelo clube, continuará disponível para Portugal.

    É precisamente aqui que a Federação tem de decidir se ainda faz sentido continuar esta história.

    Não porque Ronaldo tenha deixado de ser Ronaldo.

    Mas porque nenhuma equipa pode funcionar permanentemente com a possibilidade de uma decisão normal do treinador desencadear reuniões, comunicados, crises institucionais e abandonos.

    A decisão que Ronaldo provavelmente nunca tomará

    Cristiano não anunciou a retirada.

    Pelo contrário.

    Continua a pensar em competir, regressar e ganhar por Portugal.

    É perfeitamente coerente com a personalidade competitiva que o levou até aos 41 anos no mais alto nível.

    Mas é precisamente por isso que talvez a decisão tenha de ser tomada por quem dirige a Seleção.

    A FPF pode agradecer-lhe mais de duas décadas.

    Pode celebrar os 234 jogos e os 146 golos.

    Pode recordar o Euro 2016, as Ligas das Nações, os recordes e todas as noites em que Cristiano carregou Portugal.

    E depois pode dizer aquilo que ninguém parece disposto a dizer-lhe: chega.

    Não seria apagar Ronaldo.

    Seria proteger a Seleção.

    Porque nenhum jogador, por maior que seja, pode ser maior do que a equipa que representa.

    Cristiano Ronaldo escreveu no próprio comunicado que, “independentemente do estatuto de cada um, as regras são iguais para todos”.

    Talvez tenha chegado o momento de a Federação provar que acredita exatamente no mesmo.

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