Cristiano Ronaldo deu a sua versão em 40 parágrafos. O selecionador prometeu explicar tudo no fim da janela de jogos. Enquanto isso não acontece, imaginámos o comunicado que, na nossa opinião, Jorge Jesus devia escrever. Nada do que se segue foi dito ou escrito por Jorge Jesus.
COMUNICADO IMAGINÁRIO — texto de opinião, não escrito nem assinado por Jorge Jesus:
“Li com atenção o comunicado do Cristiano. Li-o todo, o que já diz muito do meu respeito por ele.
Começo pelo que nos une. O Cristiano é o maior jogador da história de Portugal. Treinei-o no Al Nassr, defendi-o quando muitos o queriam fora da Seleção e disse no primeiro dia que ele nunca seria um problema. Fui fiel a essa palavra até ao último minuto.
Mas há uma coisa que um selecionador não pode fazer: entregar a outra pessoa a decisão de quem joga. Nem ao maior jogador do mundo, nem ao presidente, nem a um diretor desportivo de um clube estrangeiro, por muito que o estime.
É verdade que falei com o Cristiano em agosto e lhe apresentei um plano. Faço isso com vários jogadores. Um plano é uma intenção, não um contrato. O jogo muda, os adversários mudam, a equipa muda.
Na Noruega, pedi-lhe que estivesse preparado. Aqueceu e não entrou porque o jogo pediu outras soluções. Ganhámos. Isto acontece todas as semanas a jogadores de todas as equipas do mundo, incluindo a outros 25 nesta Seleção. Nenhum deles saiu do estágio. Nenhum deles escreveu um comunicado. Não vou pedir desculpa por ter feito o meu trabalho.
Quanto às notas que o Cristiano diz ter validado: um treinador da Seleção não lê em conferência de imprensa um texto preparado por um jogador. Não o faria com o Cristiano, nem com ninguém. No dia em que o fizer, deixo de ser selecionador e passo a ser porta-voz.
O Cristiano escreve que nunca se intrometeu em decisões técnicas. Acredito que acredite nisso. Mas quando um jogador define quantos minutos joga, quando joga e o que o treinador diz sobre ele em público, isso é uma decisão técnica.
Disse ao presidente e ao Cristiano, na manhã da conferência, que o lugar dele era na Seleção. Foi ele que decidiu sair. Abandonou os companheiros a meio de um estágio, na véspera de um jogo oficial, com a braçadeira de capitão.
Um selecionador pode perdoar muita coisa. Não pode perdoar isto, porque no dia em que o fizer, nenhum jogador voltará a levar a sério a palavra “grupo”.
Por isso, deixo claro: enquanto eu for selecionador, não conto com o Cristiano Ronaldo. Não por rancor, não por falta de respeito pelo que ele fez por Portugal, mas por respeito pelos 25 que ficaram.
A Federação decidirá o resto. Eu decido quem convoco. E daqui em diante convoco quem quer estar.
O Cristiano merece uma despedida à altura da sua carreira. Terá todo o meu apoio para isso. Mas uma despedida não é uma convocatória.”


