A saída inesperada de Cristiano Ronaldo do estágio da Seleção Nacional abriu uma das maiores crises da sua longa carreira, mas está longe de ser o primeiro braço de ferro protagonizado pelo capitão português. De Wayne Rooney a Erik ten Hag, passando por José Mourinho, Rafa Benítez, Fernando Santos e até pela Juventus, CR7 acumulou vários episódios de enorme tensão. Alguns acabaram ultrapassados. Outros deixaram relações profundamente afetadas. Agora, Jorge Jesus junta-se a uma lista que atravessa praticamente duas décadas.
A carreira de Cristiano Ronaldo é feita de golos, recordes, títulos e uma longevidade praticamente sem paralelo no futebol moderno.
Mas uma personalidade tão competitiva e uma carreira vivida permanentemente sob os holofotes também produziram momentos de enorme tensão.
O mais recente aconteceu na Seleção Nacional.
Depois de permanecer no banco durante todo o encontro com a Noruega e de realizar exercícios de aquecimento sem chegar a ser utilizado, Ronaldo acabou por abandonar a concentração portuguesa antes do duelo com a Dinamarca.
A decisão aconteceu pouco depois de uma conferência de imprensa de Jorge Jesus na qual o selecionador deixou uma mensagem muito clara sobre a forma como pretende gerir as estrelas da equipa.
“O estatuto de um jogador não lhe dá qualquer privilégio especial. A minha abordagem é respeitar as suas carreiras”, afirmou o treinador.
Ronaldo respondeu horas depois através das redes sociais.
“A seu tempo direi a verdade a todos os portugueses sobre as razões que me levaram a deixar a Seleção à qual sempre me dediquei”, escreveu.
O caso está longe de estar encerrado, mas trouxe novamente à memória outros conflitos que marcaram a carreira do internacional português.
Rooney e uma imagem que correu o mundo no Mundial de 2006
É provavelmente uma das polémicas mais famosas dos primeiros anos da carreira de Cristiano Ronaldo.
Portugal defrontava a Inglaterra nos quartos de final do Mundial de 2006, na Alemanha, quando Wayne Rooney se envolveu num lance com Ricardo Carvalho.
Ronaldo aproximou-se do árbitro e protestou perante aquilo que considerava merecedor de expulsão.
O problema era evidente: Rooney não era apenas adversário naquele encontro. Era também companheiro de Cristiano no Manchester United.
O inglês acabou expulso e as câmaras captaram posteriormente Ronaldo numa imagem que foi interpretada como uma reação de satisfação perante a decisão do árbitro.
O episódio correu o mundo.
Em Inglaterra, a pressão sobre Ronaldo tornou-se enorme e rapidamente começaram as dúvidas sobre a possibilidade de os dois jogadores continuarem a partilhar o balneário do Manchester United.
A relação acabou por sobreviver ao episódio, mas aquele Mundial ficou como um dos primeiros grandes exemplos da dimensão mediática que qualquer controvérsia envolvendo Cristiano já conseguia atingir.
José Mourinho e uma discussão que obrigou os colegas a intervir
Outro nome incontornável nesta história é José Mourinho.
Curiosamente, as primeiras trocas públicas entre os dois portugueses aconteceram ainda antes de trabalharem juntos.
Em 2007, Mourinho treinava o Chelsea e Ronaldo representava o Manchester United quando ambos trocaram declarações publicamente.
Anos depois encontraram-se no Real Madrid.
A relação produziu enorme sucesso desportivo, mas também atravessou períodos de tensão.
Um dos pontos de discórdia estaria relacionado com aquilo que Mourinho exigia defensivamente ao avançado.
Luka Modric revelou anos mais tarde um episódio particularmente intenso.
Segundo o médio croata, Mourinho ficou irritado depois de Ronaldo não acompanhar defensivamente um adversário durante um encontro da Taça do Rei.
A discussão não terminou dentro das quatro linhas.
A tensão continuou no balneário e alguns jogadores tiveram de intervir para acalmar os ânimos.
A relação entre Mourinho e Ronaldo foi deteriorando-se durante a temporada 2012/13, precisamente a última da primeira passagem do treinador português pelo Real Madrid.
Rafa Benítez também descobriu como era gerir Cristiano
Depois de Mourinho, outro treinador do Real Madrid acabaria envolvido em episódios de alegada tensão com CR7.
Rafa Benítez assumiu o comando dos espanhóis em 2015, mas permaneceu apenas cerca de sete meses no cargo.
Os sinais de uma relação complicada surgiram logo durante a pré-temporada.
Num treino, Cristiano Ronaldo mostrou o desagrado depois de Benítez invalidar um dos seus golos.
Também surgiram notícias sobre diferenças relacionadas com os métodos de treino e, sobretudo, com os livres do internacional português.
Chegou a ser avançado que Benítez estaria a tentar ensinar Ronaldo a melhorar a técnica na execução de livres.
O treinador espanhol acabaria por negar essa versão.
Benítez insistiu posteriormente que mantinha uma relação “muito boa” com Ronaldo e chegou mesmo a descrevê-lo como “o melhor do mundo”.
A passagem do treinador por Madrid terminaria pouco depois, mas os episódios de tensão entre ambos permaneceram associados àqueles meses no Santiago Bernabéu.
Erik ten Hag e a noite em que Ronaldo se recusou a entrar
Se houve um conflito que apresenta alguns paralelismos com a atual discussão em Portugal, foi provavelmente aquele que aconteceu durante a segunda passagem de Cristiano Ronaldo pelo Manchester United.
Em 2022, Erik ten Hag revelou que o avançado se tinha recusado a entrar durante um encontro frente ao Tottenham.
O episódio tornou-se num enorme problema dentro do clube e a relação entre jogador e treinador deteriorou-se rapidamente.
Ronaldo acabaria posteriormente por falar publicamente sobre aquilo que considerava serem os problemas do Manchester United.
“Na minha opinião, o Manchester United precisa de reconstruir tudo”, afirmou.
Também criticou o discurso de Ten Hag sobre as possibilidades de o clube lutar pelos principais troféus.
“Se és treinador do Manchester United, não podes dizer isso”, declarou Ronaldo.
A segunda passagem por Old Trafford terminaria pouco depois.
Foi um dos finais mais turbulentos de uma etapa de Cristiano Ronaldo num clube e demonstrou, mais uma vez, a dificuldade do português em aceitar determinadas decisões quando sente que continua preparado para ter um papel principal.
Fernando Santos tomou a decisão que ninguém esperava no Qatar
O Mundial de 2022 trouxe outro dos momentos mais delicados da carreira internacional de Cristiano Ronaldo.
Fernando Santos decidiu retirar o capitão do onze para os oitavos de final frente à Suíça.
A decisão era enorme.
Ronaldo tinha sido durante anos praticamente intocável na Seleção Nacional e, num jogo a eliminar de um Mundial, começava no banco.
O jogador escolhido para ocupar o seu lugar não poderia ter respondido de forma mais impressionante.
Gonçalo Ramos marcou três golos e Portugal goleou a Suíça por 6-1.
Nos quartos de final, diante de Marrocos, Cristiano voltou a começar como suplente.
Entrou durante a segunda parte, mas não conseguiu evitar a eliminação portuguesa.
A relação entre Ronaldo e Fernando Santos nunca mais voltou a ser exatamente a mesma.
O próprio treinador reconheceria posteriormente que a ligação entre ambos tinha ficado afetada depois do Mundial e que deixaram de manter contacto.
O conflito milionário com a Juventus acabou nos tribunais
Nem todas as polémicas de Cristiano Ronaldo envolveram treinadores ou decisões dentro das quatro linhas.
A sua saída da Juventus também acabaria por resultar num conflito de natureza financeira.
O problema estava relacionado com remunerações que tinham sido adiadas durante o período da pandemia.
Ronaldo reclamou cerca de 19,5 milhões de euros ao clube italiano e o diferendo acabou por seguir para os tribunais.
A decisão acabaria por obrigar a Juventus a pagar aproximadamente metade do montante reclamado pelo internacional português.
Foi um conflito completamente diferente dos restantes, mas voltou a colocar Ronaldo frente a frente com uma instituição que tinha representado durante vários anos.
Agora é Jorge Jesus e a história parece ganhar um novo capítulo
O mais recente episódio tem contornos diferentes, mas algumas das imagens fazem inevitavelmente recordar conflitos anteriores.
Depois de ser titular diante do País de Gales, Cristiano Ronaldo começou no banco frente à Noruega.
Durante a partida esteve a aquecer, mas Jorge Jesus acabou por decidir não o utilizar.
Ronaldo não escondeu o desagrado e, depois do apito final, recolheu rapidamente ao balneário.
Seguiram-se dias de enorme tensão em torno da Seleção Nacional.
Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, acabou envolvido nas conversações destinadas a encontrar uma solução.
Mas a situação explodiu definitivamente depois das declarações públicas de Jorge Jesus.
O selecionador deixou claro que as decisões pertencem ao treinador e que o estatuto de qualquer jogador não lhe garante privilégios especiais.
Pouco depois, Ronaldo abandonou o estágio.
Uma frase deixou Portugal à espera da versão de Ronaldo
Ao anunciar a saída, Cristiano não encerrou o assunto.
Fez precisamente o contrário.
Ao garantir que “a seu tempo” revelará aos portugueses aquilo que realmente esteve por detrás da sua decisão, o capitão deixou em aberto a possibilidade de ainda existirem detalhes desconhecidos sobre o conflito.
Também Jorge Jesus já deixou indicações de que pretende abordar a situação.
Até que as duas versões sejam conhecidas, muitas das circunstâncias que rodearam a rutura continuarão inevitavelmente sujeitas a interpretações.
Existe, porém, um padrão evidente ao olhar para os episódios que acompanharam a carreira de Cristiano Ronaldo: o português nunca viveu confortavelmente com um papel secundário.
Foi essa ambição extrema que o ajudou a chegar ao topo, a quebrar recordes e a prolongar a carreira durante mais de duas décadas.
Mas foi também essa personalidade competitiva que esteve presente em alguns dos momentos mais tensos da sua passagem pelo futebol de elite.
De Rooney a Jorge Jesus, quase vinte anos de episódios explosivos
Wayne Rooney em 2006. José Mourinho no Real Madrid. Rafa Benítez. Erik ten Hag no Manchester United. Fernando Santos no Mundial do Qatar. A disputa financeira com a Juventus. E agora Jorge Jesus na Seleção Nacional.
Os episódios não são iguais e seria errado colocá-los todos no mesmo plano.
Alguns nasceram de decisões táticas. Outros de relações pessoais, questões disciplinares ou divergências financeiras.
Mas todos têm algo em comum: quando Cristiano Ronaldo entra num conflito, dificilmente o assunto passa despercebido.
Desta vez, porém, existe uma diferença enorme.
Ronaldo tem 41 anos e o conflito acontece precisamente com a equipa que representa desde 2003.
Por isso, aquilo que seria apenas mais uma polémica numa carreira recheada de momentos intensos pode transformar-se em algo muito maior.
Pode ser o episódio que define a forma como termina a história de Cristiano Ronaldo com a camisola de Portugal.
E depois de mais de duas décadas, centenas de internacionalizações e uma carreira construída em torno da recusa em desistir, ninguém sabe ainda se haverá reconciliação ou se Jorge Jesus ficará para sempre associado ao último grande braço de ferro de CR7 na Seleção Nacional.


