A polémica entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus já atravessou fronteiras e chegou a uma das maiores lendas do futebol francês. Thierry Henry foi confrontado com a saída inesperada de CR7 do estágio da Seleção Nacional e recusou que os acontecimentos dos últimos dias sejam utilizados para diminuir aquilo que o português construiu durante mais de duas décadas. Pelo meio, deixou uma pergunta que resume toda a sua posição: “Vamos julgar uma carreira inteira com base nisto?”
O caso Cristiano Ronaldo continua a provocar reações entre algumas das figuras mais conhecidas do futebol mundial.
Depois de o capitão português abandonar a concentração da Seleção Nacional na Dinamarca, na sequência dos acontecimentos que começaram com a suplência diante da Noruega, foi a vez de Thierry Henry comentar publicamente o assunto.
E o antigo avançado do Arsenal e da seleção francesa fez questão de separar duas coisas que, na sua opinião, nunca podem ser confundidas: o episódio atual e o legado de Cristiano Ronaldo.
Henry deixa uma pergunta que diz praticamente tudo
Durante a participação no programa “Rothen s’enflamme”, da rádio francesa RMC, Thierry Henry começou por evitar entrar diretamente no conflito entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus.
Para o francês, aquilo que aconteceu dentro da Seleção Nacional deverá ser resolvido pelas próprias partes envolvidas.
“Eles têm de resolver os problemas entre eles, tal como nós temos os nossos problemas em França”, afirmou.
Foi depois que surgiu a declaração que mais chamou a atenção.
Perante toda a discussão criada em redor do comportamento de Cristiano Ronaldo, Henry lançou uma pergunta:
“Vamos julgar uma carreira inteira com base nisto?”
E respondeu imediatamente:
“Impossível. Quando pensar em Ronaldo, não vou pensar neste assunto. Jamais na minha vida!”
Uma defesa inequívoca do legado do internacional português numa altura em que o seu futuro na Seleção permanece envolvido numa enorme incerteza.
Henry recusa apagar mais de duas décadas por causa de uma polémica
O antigo internacional francês explicou que uma crítica a determinado comportamento ou exibição não pode transformar-se automaticamente numa avaliação de toda uma carreira.
Henry reconhece que já criticou Ronaldo anteriormente, mas garante que essas críticas estiveram sempre relacionadas com momentos concretos.
Nunca com aquilo que o português representa para o futebol.
“Se fosse a minha mãe ou o meu pai, seria igual”, explicou Henry, reforçando que procura separar uma situação específica da avaliação global de uma pessoa ou de uma carreira.
É precisamente essa distinção que o francês considera essencial no atual caso.
Cristiano Ronaldo pode ser criticado pelo que aconteceu na concentração portuguesa. Jorge Jesus pode igualmente ser analisado pelas decisões que tomou. Mas, para Henry, nada disso altera o lugar que Ronaldo conquistou na história do futebol.
“Aquilo que representa para o futebol é excecional”
Quando a conversa passou para a dimensão histórica de CR7, Thierry Henry foi ainda mais claro.
“Se estamos a falar da lenda, não há nada a dizer. Aquilo que representa para o futebol é excecional”, afirmou.
O francês recordou igualmente todo o percurso recente de Ronaldo e a expectativa de que a reta final da sua passagem pela Seleção pudesse terminar de outra forma.
O avançado português tem 41 anos e continua a competir ao mais alto nível depois de uma carreira internacional iniciada em 2003.
Por isso mesmo, a possibilidade de a aventura de Ronaldo pela Seleção terminar na sequência de um conflito com o selecionador está a provocar uma enorme discussão dentro e fora de Portugal.
Henry não quis decidir quem tem razão no diferendo.
Preferiu olhar para aquilo que considera verdadeiramente impossível de discutir: a dimensão da carreira.
A característica de Ronaldo que mais impressiona Thierry Henry
Henry foi ainda mais longe e explicou aquilo que sempre mais o impressionou em Cristiano Ronaldo.
Não falou apenas dos golos.
Não falou das Bolas de Ouro.
Nem sequer dos títulos conquistados.
O francês destacou sobretudo a mentalidade que permitiu ao português permanecer durante tantos anos entre a elite mundial.
“Aquilo que gosto de destacar no caso de Ronaldo é a sua personalidade, a forma como lida com o futebol, a obsessão pelo jogo e pelos recordes e a vontade de ser o melhor”, explicou.
Henry destacou também o cuidado físico de Cristiano Ronaldo, considerando extraordinária a forma como conseguiu preservar o corpo ao longo de uma carreira tão longa.
Para o antigo avançado francês, essa obsessão não deve ser vista apenas como uma característica secundária de Ronaldo.
É precisamente uma das razões pelas quais CR7 conseguiu transformar-se no jogador que o mundo conheceu.
“Sem esta obsessão, não teríamos conhecido este jogador”
Foi nesse ponto que Henry deixou outra frase particularmente elogiosa.
“Isto é excecional. Sem esta obsessão, não teríamos conhecido este jogador. Vivemos momentos excecionais com ele.”
A declaração ganha ainda maior significado perante aquilo que está atualmente a acontecer.
Uma das características que levou Ronaldo ao topo, a recusa em aceitar um papel secundário e a necessidade permanente de competir, pode também ajudar a explicar a dificuldade em lidar com uma nova realidade na Seleção.
Mas Henry não utilizou essa questão para atacar o português.
Pelo contrário, destacou precisamente essa personalidade competitiva como parte fundamental da construção de uma das maiores carreiras da história do futebol.
Uma polémica que começou no banco diante da Noruega
O caso que agora leva figuras como Thierry Henry a pronunciarem-se começou na vitória portuguesa diante da Noruega.
Cristiano Ronaldo ficou no banco durante todo o encontro e chegou a realizar exercícios de aquecimento, mas Jorge Jesus acabou por não o utilizar.
No final da partida, o capitão português recolheu rapidamente ao balneário.
Os dias seguintes ficaram marcados pelas dúvidas em torno da sua participação nos trabalhos da Seleção e pelas conversas destinadas a resolver a situação.
Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, esteve igualmente envolvido nas tentativas de encontrar uma solução.
Contudo, depois de uma conferência de imprensa particularmente firme de Jorge Jesus, Ronaldo tomou a decisão de abandonar o estágio.
O próprio jogador confirmou posteriormente a saída através das redes sociais e prometeu explicar “a seu tempo” aos portugueses as razões que estiveram por detrás da decisão.
Henry não escolhe entre Ronaldo e Jorge Jesus
Ao contrário de outras figuras que já se pronunciaram sobre a polémica, Thierry Henry evitou transformar a sua intervenção numa escolha entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus.
Não afirmou que o selecionador esteve errado.
Também não disse que Ronaldo agiu corretamente ao abandonar a concentração.
A mensagem do francês foi diferente.
Independentemente daquilo que aconteceu na Dinamarca, Henry considera absurdo utilizar um único episódio para reavaliar toda a carreira de Cristiano Ronaldo.
Essa distinção torna-se especialmente relevante numa altura em que as opiniões sobre o capitão português estão profundamente divididas.
O futuro continua por esclarecer
Portugal respondeu à turbulência com uma vitória por 4-2 diante da Dinamarca, mas o resultado não colocou um ponto final no assunto.
Cristiano Ronaldo continua fora da concentração e prometeu apresentar a sua versão dos acontecimentos.
Jorge Jesus também já indicou que pretende falar sobre tudo aquilo que aconteceu.
Até lá, surgem novas opiniões praticamente todos os dias.
Thierry Henry preferiu não entrar no julgamento do conflito, mas deixou uma defesa muito forte de Ronaldo enquanto figura histórica do futebol.
O francês terminou ainda com uma referência aos jogadores que conseguiram permanecer durante anos no topo da modalidade.
“Tenho um enorme respeito por Ronaldo, tal como tenho por Messi e por todos os jogadores que conseguiram manter-se no topo.”
A pergunta de Henry fica no ar
O futuro de Cristiano Ronaldo na Seleção Nacional continua envolvido em dúvidas e as explicações prometidas pelas várias partes poderão revelar novos detalhes sobre aquilo que realmente aconteceu.
Mas Thierry Henry já deixou claro que, aconteça o que acontecer, existe uma linha que não pretende atravessar.
Para o francês, pode discutir-se a atitude de Ronaldo, a decisão de Jorge Jesus, a gestão da Federação ou aquilo que aconteceu dentro da concentração.
O que não pode fazer-se é utilizar este episódio para apagar mais de duas décadas de história.
E foi por isso que deixou uma pergunta que promete continuar a alimentar o debate:
“Vamos julgar uma carreira inteira com base nisto?”
Para Thierry Henry, a resposta não podia ser mais clara.
“Jamais na minha vida.”


