Há vários anos que existe uma espécie de ritual no futebol português. Abre o mercado de transferências, multiplicam-se as notícias sobre o interesse dos maiores clubes europeus em Diogo Costa e começa imediatamente a discutir-se qual será o próximo destino do guarda-redes do FC Porto.
Chelsea, Manchester United, Paris Saint-Germain, Bayern Munique. A lista de gigantes associados ao internacional português ao longo dos últimos mercados é impressionante.
Depois acontece quase sempre a mesma coisa.
Diogo Costa fica no FC Porto.
E talvez tenha chegado o momento de colocar uma questão que certamente não agradará a todos os adeptos portistas: será Diogo Costa realmente tão extraordinário como a reputação que construiu em Portugal sugere?
Convém esclarecer desde já uma coisa. Isto não é uma tentativa de dizer que Diogo Costa é um mau guarda-redes. Não é.
Aliás, os seus números apontam precisamente no sentido contrário.
A verdadeira questão é outra: estamos perante um guarda-redes muito bom ou perante um daqueles raríssimos guarda-redes de elite mundial pelos quais um gigante europeu está disposto a pagar uma verdadeira fortuna?
Porque entre as duas coisas existe uma diferença enorme.
E aquilo que o mercado tem mostrado nos últimos anos começa, pelo menos, a justificar algumas perguntas.
André Villas-Boas disse aquilo que os rumores não mostravam
O último verão voltou a ser particularmente fértil em notícias sobre uma possível saída.
Diogo Costa foi novamente associado a alguns dos maiores clubes europeus e o Chelsea apareceu repetidamente como possível destino.
A 14 de julho, A BOLA chegou a noticiar que os ingleses se preparavam para apresentar uma primeira proposta na ordem dos 40 milhões de euros.
O Correio da Manhã avançou uma informação semelhante, referindo que o Chelsea estaria interessado no internacional português, mas não estaria disposto a atingir os 60 milhões de euros da cláusula de rescisão.
Parecia, finalmente, que o negócio poderia avançar.
Oito dias depois, porém, apareceu uma declaração bastante mais difícil de ignorar.
André Villas-Boas foi questionado diretamente sobre a situação do capitão portista e respondeu:
«Não há nenhuma proposta, nem nenhuma aproximação.»
Não era uma informação proveniente de uma fonte anónima. Não era mais um rumor de mercado. Era o próprio presidente do FC Porto a afirmar publicamente que, naquele momento, não tinha chegado qualquer proposta ou aproximação pelo guarda-redes.
Isto não significa que os clubes não tenham acompanhado Diogo Costa. Muito menos permite concluir que todas as notícias sobre interesse eram falsas.
Mas mostra uma diferença fundamental que muitas vezes se perde durante o mercado: acompanhar ou estar interessado num jogador é muito diferente de estar disposto a comprá-lo.
Depois chegou a resposta do treinador do Chelsea
A história tornou-se ainda mais interessante algumas semanas depois.
A 7 de agosto, Xabi Alonso foi confrontado com os rumores que continuavam a ligar Diogo Costa ao Chelsea.
A resposta foi clara. O treinador espanhol declarou-se «muito feliz» com os guarda-redes que tinha à disposição, destacando Robert Sánchez e Mike Penders.
Segundo informação do The Athletic reproduzida na altura, contratar um novo guarda-redes nem sequer seria uma prioridade para os responsáveis do Chelsea.
Posteriormente, o clube londrino acabaria realmente por mexer na posição.
Mas não contratou Diogo Costa.
O Chelsea avançou por Emiliano Martínez ao Aston Villa por cerca de 7,5 milhões de libras, aproximadamente 8,7 milhões de euros.
E aqui surge inevitavelmente uma questão.
Se Diogo Costa é efetivamente um dos melhores guarda-redes do mundo e estava no radar do Chelsea, porque não avançaram os ingleses?
Existe uma explicação perfeitamente plausível. O Chelsea acredita no potencial de Mike Penders e contratar um guarda-redes experiente por um investimento muito inferior permite ter uma solução imediata sem necessariamente bloquear o futuro do jovem belga.
Seria, por isso, intelectualmente desonesto concluir simplesmente que «o Chelsea prefere Martínez porque Diogo Costa não é suficientemente bom».
Não sabemos isso.
Mas sabemos que o Chelsea conhecia Diogo Costa e não decidiu colocar dezenas de milhões de euros em cima da mesa para o contratar.
E este não é propriamente um fenómeno novo
Aqui começa verdadeiramente a parte mais interessante desta discussão.
Diogo Costa não apareceu ontem.
É titular do FC Porto há várias temporadas. É titular da Seleção Nacional. Tem experiência de Liga dos Campeões, Liga Europa, Europeus e Mundiais.
Já realizou exibições extraordinárias ao mais alto nível e protagonizou momentos que correram o mundo.
Foi associado repetidamente aos maiores campeonatos europeus.
E continua no FC Porto.
Existem naturalmente fatores que ajudam a explicar esta realidade.
O FC Porto não tem qualquer obrigação de vender. Diogo Costa renovou contrato até 2030 e está protegido por uma cláusula de rescisão de 60 milhões de euros.
Não estamos, portanto, perante um jogador em final de contrato que possa ser contratado por uma verba reduzida.
Mas isso leva precisamente à questão central.
Será que os grandes clubes europeus simplesmente não consideram Diogo Costa suficientemente melhor do que as alternativas disponíveis para justificar um investimento desta dimensão?
Os números de Diogo Costa são excelentes
Quem quiser defender a tese de que Diogo Costa é um guarda-redes mediano encontra rapidamente um problema.
Os números não ajudam.
Na Liga 2025/26, o português realizou 33 partidas pelo FC Porto e sofreu apenas 15 golos.
Terminou o campeonato com 59 defesas e uma percentagem de eficácia de 79,7%.
Conseguiu ainda 21 jogos sem sofrer qualquer golo em apenas 33 partidas.
É um registo extraordinário.
Considerando todas as competições contabilizadas pelo FBref nessa temporada, realizou 45 jogos, sofreu 25 golos, efetuou 88 defesas e apresentou uma percentagem de defesas de 77,9%.
É impossível olhar seriamente para esses números e concluir que estamos perante um guarda-redes fraco.
Não estamos.
Mas existe contexto.
O FC Porto praticamente não deixava os adversários chegar à baliza
Diogo Costa beneficiou também de uma equipa extremamente forte defensivamente.
O FC Porto terminou a Liga 2025/26 com apenas 18 golos sofridos em 34 jornadas.
Há outro número que ajuda a perceber a dimensão do domínio defensivo portista.
Durante os 33 jogos de Diogo Costa no campeonato, os adversários conseguiram apenas 74 remates enquadrados com a sua baliza.
São pouco mais de dois por encontro.
Isso não retira mérito ao guarda-redes.
Mas ajuda a contextualizar os impressionantes 21 jogos sem sofrer golos.
Uma baliza inviolada não pertence exclusivamente ao guarda-redes. Pertence também aos centrais, laterais, médios, à pressão exercida pela equipa e à capacidade coletiva para impedir o adversário de criar oportunidades.
Diogo Costa foi uma peça importantíssima daquela defesa. Não foi a defesa inteira.
Há uma característica em que é difícil discutir a sua excelência
Nas grandes penalidades, porém, Diogo Costa possui um currículo verdadeiramente impressionante.
Segundo dados do Transfermarkt citados pelo jornal espanhol AS, o português tinha defendido 14 das 52 grandes penalidades enfrentadas durante o tempo regulamentar em jogos oficiais.
Isso representa uma taxa de sucesso de aproximadamente 26,9%.
E depois existem aqueles momentos que praticamente todos os portugueses recordam.
A histórica prestação no desempate por grandes penalidades frente à Eslovénia no Euro 2024 é o exemplo mais evidente.
Tal como a defesa perante Álvaro Morata na final da Liga das Nações de 2025.
Aqui existe pouco espaço para discussão.
Diogo Costa é um especialista em grandes penalidades.
Mas um guarda-redes avaliado em 60 milhões de euros não é analisado apenas pelas grandes penalidades que defende.
Os grandes clubes não compram vídeos de melhores momentos
Este talvez seja o ponto mais importante de toda a discussão.
Para o adepto, a avaliação de um guarda-redes é inevitavelmente influenciada pelos grandes momentos.
Uma grande penalidade defendida num Europeu fica na memória durante anos. Uma defesa espetacular é repetida dezenas de vezes. Um erro aparentemente pequeno de posicionamento pode desaparecer da memória algumas horas depois.
Os departamentos de recrutamento dos maiores clubes europeus não trabalham dessa forma.
Analisam centenas de situações.
Posicionamento. Jogo aéreo. Capacidade de controlar a profundidade. Qualidade com os pés. Decisão sob pressão. Comportamento perante cruzamentos. Regularidade. Capacidade de defender remates difíceis. Erros. Características físicas. Adaptação ao modelo de jogo.
E, finalmente, preço.
É precisamente nesta última variável que Diogo Costa poderá encontrar o principal obstáculo.
O verdadeiro problema podem ser os 60 milhões
É perfeitamente possível que a conclusão dos grandes clubes seja muito mais simples do que parece:
«Diogo Costa é excelente. Mas não vale 60 milhões de euros para nós.»
Esta hipótese explicaria praticamente tudo.
Explicaria o interesse recorrente. Explicaria os contactos exploratórios noticiados ao longo dos anos. Explicaria porque aparece constantemente associado a gigantes europeus.
E explicaria também porque continua no Dragão.
Um clube não precisa de considerar Diogo Costa mau para desistir da sua contratação.
Basta considerar que consegue obter 80% ou 90% daquilo que o português oferece pagando substancialmente menos.
É assim que uma decisão de recrutamento deve ser analisada.
A pergunta não é simplesmente:
«Diogo Costa é melhor do que o nosso guarda-redes?»
A pergunta realmente importante é:
«Diogo Costa é suficientemente melhor para justificar dezenas de milhões de euros adicionais?»
São perguntas completamente diferentes.
E é aqui que a narrativa portuguesa pode estar exagerada
Em Portugal, Diogo Costa é frequentemente apresentado como um guarda-redes inevitavelmente destinado à elite europeia.
Quando faz uma grande exibição, regressa imediatamente a conversa dos 60 ou 70 milhões.
Quando defende uma grande penalidade, reaparecem os gigantes europeus.
Quando chega o mercado, parece que a saída está novamente iminente.
Mas existe uma realidade que não pode ser ignorada.
Diogo Costa tem 26 anos.
Já existe uma quantidade gigantesca de informação sobre o guarda-redes.
Não estamos perante um jovem desconhecido de 19 anos que Real Madrid, Chelsea, Bayern ou PSG ainda estejam a tentar descobrir.
Os grandes departamentos de scouting sabem quem é Diogo Costa.
Conhecem as virtudes. Conhecem os defeitos. Conhecem os dados. Conhecem a capacidade com os pés. Conhecem o comportamento nas grandes penalidades. Conhecem a experiência internacional.
E conhecem o preço.
Mesmo assim, naquele momento do mercado, segundo o próprio presidente portista, não tinha chegado ao FC Porto qualquer proposta ou aproximação concreta.
Isso não prova que Diogo Costa esteja sobrevalorizado.
Mas também não deve ser simplesmente ignorado.
Talvez tenhamos confundido «muito bom» com «fora de série»
É provavelmente aqui que está a verdadeira discussão.
Diogo Costa pode ser simultaneamente duas coisas:
pode ser um excelente guarda-redes e pode estar sobrevalorizado aos 60 milhões de euros.
Uma coisa não invalida a outra.
Talvez o erro esteja em transformar a discussão numa escolha entre dois extremos.
Ou é extraordinário e vale 60 milhões, ou é fraco.
Não tem de ser assim.
Existe uma enorme distância entre um guarda-redes fraco e um dos melhores guarda-redes do planeta.
Diogo Costa pode perfeitamente ser suficientemente bom para ser titular indiscutível do FC Porto e da Seleção Nacional.
Pode ser suficientemente bom para jogar num grande clube europeu.
Pode até ser melhor do que vários guarda-redes atualmente titulares nesses clubes.
Mas isso não significa automaticamente que seja suficientemente diferenciador para alguém pagar 60 milhões de euros.
O mercado pode estar a dizer aquilo que ninguém quer ouvir
No final, talvez estejamos simplesmente perante um caso clássico de diferença entre o valor atribuído pelo vendedor e aquele que o comprador está disposto a pagar.
Para o FC Porto, existem razões perfeitamente compreensíveis para valorizar Diogo Costa desta forma.
É capitão. Foi formado no clube. É internacional português. Está numa idade de plena maturidade para um guarda-redes e tem contrato até 2030.
Faz todo o sentido que o FC Porto não queira abdicar facilmente de um dos seus principais ativos.
Mas o mercado, pelo menos até agora, não parece disposto a acompanhar essa avaliação.
Os rumores sucedem-se.
Os interessados aparecem.
As capas dos jornais acumulam-se.
Mas Diogo Costa continua no Dragão.
E talvez devêssemos deixar de perguntar quando aparecerá finalmente o gigante europeu que o vai contratar.
Talvez a pergunta realmente interessante seja outra:
Se tantos dos maiores clubes europeus o conhecem, o acompanham há anos e sabem exatamente aquilo que pode oferecer, porque é que nenhum deles colocou em cima da mesa uma proposta capaz de convencer o FC Porto a vendê-lo?
A resposta pode ser simplesmente que o FC Porto pede demasiado.
Pode ser que os grandes clubes tenham outras prioridades.
Pode ser que estejam satisfeitos com os guarda-redes que já possuem.
Pode ser uma combinação de todas estas coisas.
Mas também existe uma hipótese mais incómoda.
Talvez Diogo Costa seja realmente muito bom. Só não seja tão extraordinário como em Portugal nos habituámos a dizer que é.
E, às vezes, o mercado é a forma mais fria de descobrir a diferença.